Pesquisa aponta que metade dos jovens de Natal quer trabalhar no serviço público

Por Tribuna do Norte, 14/01/2020

Mariana Ceci
Repórter

Pessimistas quanto ao futuro do país, os jovens natalenses miram no serviço público como alternativa de carreira. É o que mostra a pesquisa feita pelo Instituto RadarNE com exclusividade para a TRIBUNA DO NORTE, que durante os dois dias de aplicação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) 2019 entrevistou pessoas nos locais de entrada e saída das provas em Natal, a fim de traçar um perfil dos candidatos para ingresso no ensino superior no Rio Grande do Norte. De acordo com a pesquisa, 50% dos entrevistados querem trabalhar no serviço público ao concluir a graduação, e que 59% demonstra algum grau de pessimismo quanto ao futuro do País.

Lorena Veríssimo vê no concurso uma chance de estabilidade

Lorena Veríssimo vê no concurso uma chance de estabilidade
Para os especialistas, diversos fatores contribuem para atrair cada vez mais os jovens para o serviço público, como a promessa de estabilidade ou, em muitos casos, o desejo de fazer a diferença. “Isso mostra que estabilidade e garantias, não apenas financeiras, mas também profissionais estão na perspectiva dos candidatos, o que faz sentido dentro do contexto de crise econômica que o País viveu nos últimos anos, pois as pessoas passaram a ter uma perspectiva mais pragmática, inclusive os jovens”, afirma o sociólogo ae diretor do RadarNE, Maurício Garcia.

De acordo com a pesquisa, 21% dos entrevistados afirmam querer trabalhar no setor privado, enquanto 26% desejam ser profissionais liberais. Outros 2% não souberam responder à pergunta. “Mesmo dentro de áreas que tradicionalmente há um grande número de profissionais liberais vemos uma procura cada vez maior pelos concursos. É o caso da área do direito, por exemplo, onde muitos que procuram o setor não visam mais a advocacia, mas sim fazer concursos ou se capacitar melhor para atuar em outras áreas”, explica Garcia.

Aos 18 anos, Lorena Veríssimo conta que pretende fazer o curso de publicidade e propaganda. Apesar das perspectivas iniciais serem de atuar no setor privado, ela conta que um concurso não está fora de suas perspectivas. “Pela área que escolhi, acredito que o começo será sim no setor privado. Mas um concurso público é uma possibilidade que não excluo, principalmente por costumar oferecer mais garantias e estabilidade”, explica.

De acordo com a jovem, pensar no futuro é uma fonte de ansiedade, considerando aspectos como desemprego, que ainda são altos no Brasil. “É algo que me causa muita angústia, porque vejo aquilo que meus pais alcançaram e tenho medo de não ter as mesmas oportunidades, pelo rumo que as coisas estão tomando no País. Há muito desemprego, falta de oportunidades, e a questão da segurança também não provoca otimismo”, afirma Lorena.

De acordo com a pesquisa, dentre os 59% que não têm perspectivas positivas sobre o futuro do País, 41% se considera apenas “pessimista”, enquanto 18% se considera “muito pessimista”. Os otimistas, por sua vez, correspondem a 39% do total dos entrevistados. Desses, 36% se diz “otimista”, enquanto 3% se considera “muito otimista” quanto ao futuro do Brasil.

“Infelizmente, para o jovem, pensar no futuro com os rumos que o Brasil está tomando se tornou uma constante dor de cabeça. Parece que as perspectivas são cada vez mais limitadas, quando deveriam ser mais amplas”, diz Lorena.

O consultor de empresas e professor universitário Flávio Emílio Cavalcanti afirma que a entrada de pessoas cada vez mais jovens, por um lado, tem sido positiva para “oxigenar” o serviço público. “O pessoal mais jovem que entra no serviço público entra com uma pegada diferenciada. São pessoas que querem mudar a cara do serviço público na medida do que eles podem. Isso é muito bom, dá uma oxigenada no serviço público.”

De acordo com ele, a questão a ser investigada a partir dos resultados da pesquisa diz respeito a quantos dos que se dizem interessados no serviço público de fato têm interesse em servir à população. “Desse contingente tão grande que declara interesse no serviço público, quantos por cento se sentem realmente vocacionados para trabalhar em prol da sociedade? E quantos estão querendo esse caminho porque veem uma ideia que se criou de estabilidade? São coisas a se pensar, porque o cenário atual é de instabilidade, então pode ser um fator que influencia nessa escolha”, afirma.

45% dos jovens do RN se consideram empreendedoresOutro dado analisado na pesquisa feita pelo RadarNE/TRIBUNA foi a quantidade de jovens que se considera “empreendedor”. Dentre os entrevistados, a maior parte, 54%, não se considera empreendedor, enquanto 45% se consideram empreendedores de alguma maneira. “Esse número chamou bastante a nossa atenção porque o número de  entrevistados que se considera ’empreendedor’ é muito alto, inclusive entre jovens que não chegaram a ter uma experiência formal de trabalho”, afirma Maurício Garcia, diretor do RadarNE.

De acordo com o Sebrae RN, uma das maiores portas de entrada para os microempreendedores no Estado, 21.835 estudantes procuraram o serviço em 2019 a fim de buscar algum tipo de atendimento, muitos deles buscando consultorias para dar início a seus próprios negócios.

“O que atrai o jovem para o meio do empreendedorismo é justamente a disseminação sobre o que é essa prática”, explica o Gestor do Projeto Transformação Digital do Sebrae RN, Everton Lucena. “Havia um pensamento retrógrado de que empreendedor é apenas o empresário, o que não é verdade”, completa.

De acordo com ele, diversas modalidades de empreendedorismo se desenvolveram ao longo dos últimos anos, não apenas enquanto prática econômica, mas como um conjunto de comportamentos e atitudes profissionais que, muitas vezes, são buscadas pelas empresas na hora de contratar um funcionário.

“Você pode empreender em qualquer ambiente em que esteja inserido: como empresário, e aí você é o empresário empreendedor, como empreendedor social, que trabalha em prol de sua comunidade, como intra-empreendedor, que é aquele que busca ter atitudes proativas em prol da empresa onde vá trabalhar.”, diz.

Apesar de muitas vezes ser atrativo aos jovens por aspectos como flexibilidade nos horários de trabalho, na vestimenta e por estar fora dos moldes das empresas tradicionalmente hierarquizadas, o empreendedorismo, no entanto, não representa um caminho livre de dificuldades. “É muito importante que se saiba o que é o empreendedorismo e que se desenvolva uma mentalidade empreendedora desde cedo, mas isso é diferente de acreditar que é um caminho mais fácil porque você não vai ter um chefe, por exemplo”, afirma Lucena.

Para o consultor de empresas Flávio Emílio Cavalcanti, o aumento no número de pessoas que se declaram empreendedoras também está relacionado à retração da quantidade de empregos disponíveis no mercado de trabalho.

“Criou-se uma imagem do empreendedor como sendo alguém livre, autônomo, mais inteligente que a média e capaz de ganhar seu próprio dinheiro sem se submeter a uma hierarquia, como se fosse alguém que fosse ficar rico fácil. Essa imagem é falsa. O empreendedorismo é um caminho viável, mas não é fácil.   Considerando a retração na oferta de emprego, é natural que o empreendedorismo cresça, e é possível que muitas das pessoas tenham uma ideia glamourizada do que significa isso”, afirma Cavalcanti.

Pesquisa RadarNE/Tribuna do NorteO que pensam os estudantes que fizeram o Enem:

pesquisa

A pesquisaNo último domingo (12), a TRIBUNA DO NORTE deu início a uma série de reportagens que aprofundam os números revelados pela pequisa feita pelo Instituto RadarNE durante os dois dias de aplicação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) em Natal. Ao todo, 483 pessoas foram entrevistadas nos dias 3 e 10 de novembro de 2019 em Natal,  na entrada e saída dos alunos nos locais onde a prova estava sendo aplicada, utilizando o critério do salto sistemático na entrada e saída de participantes.

Essa é a segunda matéria da série, que aborda o otimismo dos jovens quanto ao futuro e como isso se relaciona com as suas escolhas profissionais. A primeira reportagem da série trouxe uma análise de dados dos cursos mais desejados, tipos de universidade em que os estudantes desejam cursar a graduação. O intervalo de confiança da pesquisa é de 95%, com margem de erro de 4% para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra. As demais reportagens serão veiculadas na quarta-feira (15) e quinta-feira (16).

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