Alunos impedidos de estudar


A Escola Estadual Aldo Fernandes, no Gramoré, vive um drama: a falta de professores. Aulas suspensas são rotina
Gabriela Olivar // gabrielaolivar.rn@dabr.com.br

Apesar de se mostrar empenhada em estudar, Graziella Martins, de 14 anos, está com a carga horária de aula incompleta em virtude da falta de professores na Escola Estadual Aldo Fernandes, no Gramoré, Zona Norte de Natal. A adolescente, que cursa o 7º ano do nível fundamental, não paga qualquer disciplina nas terças e sextas-feiras e tem horários vagos nos outros dias, sendo obrigada a voltar para casa sem conteúdos importantes como língua portuguesa, por exemplo. “Estou me sentindo prejudicada com esse problema, pois batalho muito pelo meu futuro e minha mãe não tem condições de pagar escola particular”, lamenta.


Portas das salas trancadas, alunos do lado de fora. A cena tem sido comum há dias Foto: Ana Amaral/DN/D.A Press
Graziella é um dos 1.300 estudantes matriculados na escola, que, na tarde de ontem, por meio da diretora Marluce Dantas, reuniu pais e mestres, pela 3ª vez nesse ano letivo, para discutir possibilidades de melhora frente à falta de professores para suprir o quadro docente. “Estamos necessitando de um professor polivalente, para ensinar do 1º ao 5º ano, estudante de pedagogia, e cerca de seis de áreas específicas, para o 6º ano até o ensino médio, já que os seis mestres com licenciatura que temos aqui já estão com a carga horária completa”, diz a diretora. Segundo ela, graças à mobilização feita no colégio, a situação já esteve bem pior. “Estávamos precisando de oito polivalentes, mas há 15 dias chegaram quatro e de ontem (terça-feira) para hoje (ontem), chegaram mais três”. Marluce afirmou, ainda, que nenhum deles é formado. “São estagiários que corri atrás, porque não está fácil de encontrar. Teve um deles que tive que ‘buscar’ em casa, perguntando se não teria interesse no trabalho”.

Para ser estagiário no ensino público estadual, é preciso ter concluído pelo menos a metade das disciplinas oferecidas no curso superior, de pedagogia (polivalente) ou licenciatura (disciplinas específicas), e ter um bom rendimento acadêmico. “E os estagiários preferem atuar próximo de suas residências, logicamente, o que dificulta ainda mais nossa busca”, comenta a diretora.Mais estudantes de licenciaturas supririam temporariamente a falta de professores à tarde, onde a situação é mais crítica. “Estamos com 80 aulas vagas no turno vespertino, e a escola está se desdobrando como pode, com aulas extras, para deixar o mínimo de alunos sem atividades”, garante Marluce Dantas, que ressalta que “a Zona Norte inteira tem sofrido com a falta de docentes”.

A costureira Rosemerce Mendes, de 38 anos, tem quatro dos cinco filhos matriculados na Escola Aldo Fernandes. “Minha menina que está na 4ª série e tem nove anos ainda não teve aula em 2010”, reclama. “Não sabemos mais a quem recorrer. Saí do trabalho correndo, de bicicleta, só para participar dessa reunião, na esperança de uma resolução”, completa. A mãe reivindica, ainda, que o governo federal não pode exigir a contrapartida do Bolsa Família, de ter as crianças frequentando as aulas, se não há professores. “Estamos sendo lesados”.

Para o professor de matemática Renato Cunha Lima, que também participou da reunião, o problema acarreta na queda da qualidade das aulas que são dadas. “Os alunos ociosos ocupam o pátio da escola e tumultuam, tirando a atenção dos que estão em sala. Isso é prejudicial para nós e para os jovens”, afirma. “Engraçado que quando fazemos greve, logo tornam o movimento ilegal. E escola sem professor, é legal?”, questiona outro docente, Marcos Pessoa.

O responsável pela 1ª Diretoria Regional de Educação, ligada à Secretaria Estadual de Educação e Cultura, José Fernandes, afirmou à reportagem que a situação na escola está se estabilizando, “como a própria diretora mencionou”, e, dentro dos próximos dias, o problema terá sido totalmente resolvido, já que o órgão está selecionando estagiários para atuar enquanto o quadro fixo não é reformado, com a realização de um concurso público ainda este ano, que promete contratar 2.500 profissionais em todo o estado. “Não é fácil recrutar os estagiários com os pré-requisitos que exigimos, por isso muitas escolas estão sofrendo com falta de docentes”, justifica o diretor.

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