Cultura popular em sala de aula

PESQUISADOR PUBLICA LIVRO QUE PODE ORIENTAR ESCOLAS NA ADOÇÃO DO FOLCLORE COMO DISCIPLINA CURRICULAR
Republicamos matéria do jornal Diário de Natal, Muito, 10/07/2010

Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@dabr.com.br

O teorema de pitágoras, o quadrado da hipotenusa, a massa de prótons, nêutrons e elétrons bem poderia ser ensinado nas escolas junto com assuntos mais proveitosos na vida prática ou de formação cidadã mais eficaz. O trabalho de atualização dos conhecimentos do folclore e da cultura popular frente ao mundo globalizado é a proposta do folclorista Severino Vicente como acréscimo à grade curricular em escolas públicas e privadas do Rio Grande do Norte. A intenção é proteger tradições, costumes e práticas sócio-culturais da identidade potiguar.

Iniciativa visa cumprir legislação instituida na década de 1980 e pode ser uma aliada de projetos como o Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, que mantém rico acervo do RN Foto: Maria Iglê/Esp. DN/D.A Press

A instituição da nova disciplina escolar vai de encontro com os ditames dos novos tempos. Cientistas da educação já questionam quais finalidades pedagógicas a escola – ainda essencialmente tecnocrata – deve atingir e como selecionar experiências de aprendizagem úteis para alcançar esses objetivos. Para Severino, é preciso legitimar a preocupação dos estudantes com a cultura popular e formar juízo de valor em consonância com a comunicação educacional recomendada na Carta do Folclore Brasileiro, preconizada pela Unesco.

“Essa Carta mostra a importância das expressões do povo brasileiro pela dança, música, poesia, a prática lúdica infantil, o teatro popular, contextualizando com as celebrações cíclicas e suas motivações cujas origens são obras da nossa mestiçagem”. Segundo o folclorista, esses seriam pontos de partida para o aluno compreender e se fazer compreender em seu contexto social, se livrando do equívoco da alienação sócio-cultural crescente ante a comunicação de massa promovida pela indústria cultural e os malefícios da globalização totalitária.

“Isso significa dizer que a comunidade envolvida com o folclore e a sua verdadeira identidade cultural deverá ter a capacidade de ler o que acontece em termos de festas culturais e cíclicas sem precisar se submeter a uma ordem global, ou seja, é conviver com o global, mas conhecendo e fazendo a diferença a partir das práticas locais”, exemplifica Severino, que escreveu um livro intitulado Folclore e Cultura Popular nas Práticas Pedagógicas – uma espécie de manual didático a ser adotado por escolas e professores do Ensino Médio.

Lei

Severino quer, na verdade, fazer cumprir a lei de autoria do então deputado estadual Valério Mesquita, que instituiu, em meados da década de 80, o ensino do folclore nas escolas públicas estaduais. “É lei. E a secretaria de Educação, tanto municipal quanto estadual poderiam fazer o que ninguém fez desde essa época que é, simplesmente, cumprir a lei”. Segundo Severino, a disciplina do Folclore já é ensinada em estados como o Rio Grande do Sul, Ceará, Sergipe, São Paulo e Paraíba. Em alguns desses estados, até nas universidades.

Obra funciona como guia prático

O livro de Severino funcionaria como espécie de guia prático para professores. Os capítulos foram montados de forma a levar os alunos a entenderem e tomarem gosto pela cultura popular. Além de definições dos termos, há também subtítulos a respeito da compreensão do folclore na era da informação, o mundo encantado dos folguedos, os autos populares (congos, caboclinhos, bois…), cirandas, coco de roda, danças do Espontão e de São Gonçalo, além do Araruna. Ainda os romanceiros, crendices e superstições, religiosidades, culinária, teatro popular e outros assuntos.

Severino Vicente, autor de Folclore e Cultura Popular nas Práticas Pedagógicas Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press

O livro traz na capa uma imagem aparentemente contraditória, mas oportuna. O potiguar Deífilo Gurgel – considerado o maior folclorista brasileiro em atividade – segurando um folheto de cordel junto a um adolescente em frente ao computador. “Mostra a importância da preservação das tradições com a necessidade de atualização com o novo mundo, além, claro, de uma homenagem ao nosso mestre Deífilo”, explica Severino. O livro foi editado pela Imeph, de Fortaleza e será lançado em agosto, no mês do Folclore, quando uma série de atividades está programada.

Severino destaca que o formato do livro é inédito. Segundo ele, mesmo os livros de Câmara Cascudo e de Deífilo Gurgel abordam temáticas específicas do nosso folclore ou mesmo sem o didatismo necessário à adoção nas escolas. “Esse livro foi pensado com esse objetivo”, ressalta o folclorista. A secretaria de Educação já se comprometeu a comprar 500 exemplares. “O ideal seria adotar em cada uma das escolas, que são cerca de 2 mil espalhadas pelo Estado. Se compraram 500 devem distribuir em bibliotecas ou outro local. Não adianta. Ninguém vai procurar o livro”.

O folclorista idealiza, além da adoção do livro nas escolas e da disciplina do folclore na grade curricular, uma parceria com o Registro do Patrimônio Vivo – lei de autoria do deputado estadual Fernando Mineiro que concede verba fixa e mensal para grupos e mestres do folclore potiguar em troca de apresentações gratuitas em locais públicos. “Essas apresentações podem ser nas escolas. Eles devem isso ao Estado em troca do benefício. Agora, se ninguém chama, eles não vêm”.

Engajamento

Severino diz esperar maior sensibilidade da secretaria de Educação. E justifica: “O mundo hoje perdeu suas fronteiras. Vivemos frente a um mundo culturalmente cosmopolita e metropolitano. É preciso que professores e alunos exercitem os conhecimentos da cultura de sua região, de seu estado, de seu país. Não basta as escolas promoverem eventos no mês do Folclore e fingir engajamento com a causa. É preciso vivenciar o tema como é feito com a matemática, a química e a física. Tentamos isso já faz mais de 10 anos”, conclui

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