De soldado a coronel: a história da policial militar que há 31 anos desafia o machismo

POR SINSP/RN, 13/09/2021

O ano era 1989 e Margarida Brandão Fernandes de Araújo tinha 18 anos e havia passado no concurso da rede pública de ensino do Estado do Rio Grande do Norte, mas antes de assumir veio uma outra vaga pública que mudou a sua vida: o primeiro concurso para a segurança pública aqui no Estado.

“Eu já tinha passado nos concursos da educação e aí como a Polícia Militar naquela época pagava melhor, tinha uma banda de música, eu sou música também, então meu interesse principal era entrar na corporação pra ir para banda da PM”, lembra a Coronel Margarida.

Mas a jovem não foi para a banda de música, mas sim construiu uma história única na Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Tornou-se a primeira mulher a passar por todas as patentes da corporação. Margarida Brandão foi de soldado até Coronel, realizando as graduações internas até chegar ao topo da polícia militar.

Para chegar tão longe em 31 anos de história na PMRN, a coronel Margarida batalhou muito e sofreu bastante, mesmo assim recorda do passado com saudosismo e afirma que a PM trouxe tudo que ela tem hoje em dia, incluindo a família.

Primeiros passos

Coronel Margarida lembra que o governador da época, Geraldo Melo, acompanhou o rumo que o Brasil seguia na época em fortalecer as polícias com mulheres, assim entendendo a importância e necessidade de ter representantes do sexo feminino na segurança pública realizou o primeiro concurso com vagas destinadas as mulheres.

“Vínhamos da época da ditadura, tinha aquela história de polícia ser truculenta, então a sociedade exigia da segurança um tratamento diferenciado, especialmente para mulheres crianças e idosos. São Paulo entra como pioneira com uma professora de medicina legal que formou as ‘13 mais corajosas’, temos essa referência nacional da professora Ilda”, afirma a coronel Margarida.

Ela lembra que duas outras mulheres foram as primeiras da PM no RN, Tereza e Angélica, que entraram na corporação já como oficiais. Elas serviram como exemplo para as praças que acabaram de presar o concurso e passavam pelo treinamento militar.

“Então foram cinquenta e sete moças que foram inscritas, essa turma ela chama-se as ‘pioneiras potiguares’ porque foi a primeira turma de mulheres que foi de fato formada aqui no Rio Grande do Norte. Foi um concurso muito concorrido, a maioria já tinha nível superior. Foi uma turma bem seleta, de pessoas que realmente estavam começando uma carreira e entraram pra fazer realmente essa diferença”.

Já durante o curso de formação as “pioneiras potiguares” sofriam com o preconceito na PM.

“Sentimos muitas dificuldades, eu estou falando em nome de todas, mas é perto da minha história também. Inclusive não tivemos muitas dificuldades de aceitação por parte dos homens. Até a própria estrutura do comando geral da polícia, esse universo masculino, por exemplo. A gente usava o banheiro dos homens, não tinha um banheiro exclusivo pra e às vezes os homens não tinham tanto cuidado na questão da higiene”, recorda a PM.

A coronel também relembra um episódio marcante nos primeiros momentos na instituição.

“Eles cortaram o nosso cabelo, rasparam o nosso cabelo e a gente ficou tipo recruta zero. E você sabe que o cabelo pra mulher ela tem um ele tem uma importância muito simbólica, né?”.

De praça a oficial da PM

Para se tornar oficial, a atual coronel teve de estudar muito dentro da PM. Dentro da corporação existem três grandes cursos, que são chamados de pós-graduações, a coronel Margarida passou por todos eles e por todas as patentes até chegar ao topo da PMRN.

Apesar de todo o esforço e conhecimento a coronel sofreu muito preconceito.

“Eu fui uma pessoa que fui perseguida. Sofri assédio moral, entre outras e outras coisa. Mesmo assim sempre avante de cabeça erguida e sem desistir. Não vamos desistir nunca. Eu acho que a cada tempo que passa a gente tem na verdade é que buscar mais espaço e correr atrás do que acredita. Eu acho que o diferencial da mulher”, afirma a coronel Margarida.

Família PM

A PM não foi apenas o espaço de formação e emprego da coronel Margarida, também foi nessa instituição que ela formou sua família e que até hoje mantém a mesma gratidão de 31 anos atrás.

“No decorrer da minha história eu conheci um oficial em Alagoas e aí nós casamos, hoje nós temos dois filhos, ele é oficial também hoje aqui, é coronel Arthur, da Polícia Militar. Assim a instituição me trouxe muitos amigos, me trouxe muitas pessoas boas, o meu sustento, as minhas filhas, o meu marido tudo que eu tenho eu devo a instituição Polícia Militar”, diz emocionada.

Hoje coordenadora de segurança institucional, coronel Margarida é responsável pela segurança da governadora Fátima Bezerra, de autoridades externas como ministros e embaixadores, como também a segurança de todo o centro administrativo do Estado.

Coronel Margarida um incrível exemplo de como enfrentar o machismo e os preconceitos e com resiliência ser feliz e atingir o máximo de respeito da sociedade! O SINSP parabeniza pelos 31 anos de sua formação como praça da PM e por hoje ser a coronel Margarida!

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