Demissão em pauta na Tribuna do Norte

POR Coletivo Foque, 03/04/2020

Era pra ser só uma quarentena. Até que uma ligação da redação da Tribuna do Norte avisa ao jornalista Yuno Silva que ele não faz mais parte do quadro de funcionários. Tá demitido.

“Quando eu recebi a ligação na manhã de 1º de abril, não é mentira, eu já tinha digerido essa notícia por listas em grupos de whatsapp que estavam circulando desde a tarde do dia 30 de março. Isso me deixou profundamente chateado porque eu fiquei sabendo que estava demitido por terceiros. Então, o que mais me incomoda é a falta de respeito e ética por terem vazado a informação antes de oficializar”, diz Yuno por telefone.
Em entrevista para o Coletivo Foque, ele explica que apesar do período meio assustador não está desesperado. “Pessoalmente, é desafiador e é bacana porque a gente sai da zona de conforto. Não descarto continuar no jornalismo, principalmente de forma independente, criando o próprio produto, mas também não descarto mudar de área. Eu sou peão (faz tudo) nas horas vagas, então, têm muitas possibilidades. Uma, é essa de atuar independente, outra é que fiz uns contatos jornalísticos com o interior de São Paulo, e a outra é mudar totalmente de área mesmo”.
Para não comprometer o lucro da empresa, a Tribuna do Norte resolveu arrancar o crachá que garantia o pagamento das contas de dezenas de trabalhadores, sem pedir licença, em meio à pandemia do coronavírus que estampa as manchetes do jornal. Em tom de desabafo, Yuno lamenta a demissão sem justa causa, por telefone, em plena quarentena e um dia após terminar sua licença médica. “É triste o fim desse ciclo na Tribuna do Norte, ainda mais por estar sendo demitido num período extremamente complicado, fica a sensação de que a vida das pessoas importa menos”, diz ao lembrar que entrou na Tribuna do Norte em 2004 e ficou até 2006 como estagiário. “Tirei algumas férias fazendo freelas em 2009, e estou direto desde 2011. Juntando tudo dá 12 anos”.
Num bate-papo em quarentena o ex-jornalista da Tribuna do Norte soltou o verbo.

COMO É ESTAR DO OUTRO LADO DA ENTREVISTA QUANDO ACABOU DE SER DEMITIDO DA FUNÇÃO DE JORNALISTA?

É um alívio por causa da liberdade, mas é uma sensação entranha ter que buscar respostas para certos assuntos delicados que ainda estão se desenrolando, mas é uma sensação boa também.

O QUE SENTIU AO TER ARRANCADO DE VOCÊ O CRACHÁ QUE USOU POR TANTO TEMPO FAZENDO O QUE GOSTA?

Confesso que estou meio nu, mas nessa conjuntura política o crachá já não protegia tanto. “Minha reivindicação dentro da empresa era ir pra rua de colete laranja fosforescente pra todo mundo saber que estou ali a trabalho”. Infelizmente, o crachá de jornalista, que já teve um peso maior no meu pescoço, quando foi tirado de mim ele estava bem levinho no sentido de não ter a relevância que teve.

COMO VOCÊ VÊ O MERCADO DE TRABALHO PARA JORNALISTAS?

O jornalismo e a comunicação em geral está numa crise desde a explosão das redes sociais, a gente vê um desmonte geral, muita gente migrou para blog, alguns viraram papagaios de instragram. Então, hoje em dia tem o jornalismo de entretenimento, tem o jornalismo pelego, e tem o jornalismo de verdade cada vez mais restrito. O leitor quer uma informação de qualidade, mas não está disposto a pagar por ela, pois acha que na internet tudo é gratuito, mas alguém trabalhou para aquilo que ele está lendo, vendo, assistindo, teve um custo para ser produzido, publicado e manter no ar. Então, os leitores também tem responsabilidade nessa crise. Todo ano as universidades estão formando novos jornalistas para o mercado de comunicação onde a perspectiva é a precarização dos postos de trabalho e a redução do salário de jornalista.

ONDE VOCÊ ACHA QUE O JORNALISMO PODERIA MELHORAR?

O papel do jornalista é reportar fatos concretos e reais, e o jornalismo melhoraria muito se os empresários que ganham dinheiro com a comunicação parassem de interferir e tentar controlar. É utópico isso, mas é preciso compromisso, ética e convicção. Por isso deixei de assinar matérias, fiz questão de assinar outras. A função de jornalista é essa: buscar fontes confiáveis, ouvir o contraditório e questionar.

QUAL FOI A ÚLTIMA COISA QUE VOCÊ FEZ COMO JORNALISTA DA TRIBUNA DO NORTE?

A última matéria que eu fiz para a Tribuna foi sobre o ato pró Bolsonaro no dia 15 de março, ocasião em que fui agredido e me deixou em pânico. Depois disso entrei de licença médica e fiquei em casa. Até saber que fui demitido.

“Agora, uma das matérias mais legais e importantes que fiz foi a recuperação de quatro gravuras de Tarsila do Amaral que tinham sumido do acervo da Pinacoteca do Estado, em 2015. Chegou uma informação no meu ouvido, aí eu comecei a investigar, foram dias apurando, aí a gente conseguiu recuperar as gravuras”.
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