Direitos Humanos e Sociedade

O ÍDOLO DE BARRO – UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA
Republico matéria do Blog do Zé, 14/07/2010

Rose Nogueira

Quando o país parou e muita gente chorou depois de confundir o Brasil com a Seleção, ninguém poderia imaginar notícia mais trágica no reino do futebol. Mas teve uma, com todos os componentes e personagens das tragédias gregas clássicas. Envolve um rei ou herói, uma mulher bonita, intrigas, casamento, amores, filhos, pais, mães, a sociedade imperfeita, os costumes, a hipocrisia, a paixão, a vingança, a traição, a vida e a morte. Tem até um coro, formado pelo séqüito de parasitas que costumam acompanhar os ídolos, por simples proximidade ou por dinheiro. Se fosse uma peça de teatro, o coro cantaria mais ou menos assim:

– Mata! Mata! Mata!
Ela te incomoda. Mata!
Para um rei não acontece nada,
mulher é menos que barata…

E o herói, como todo psicopata, decidiria que sim, que a moça linda deveria sumir de sua vida. Um semi-deus não pode ser incomodado. Se ela perturba com exigências – mesmo depois de ele ter se encantado e desfrutado de seu corpo e sua companhia – ele se transforma em juiz perverso e vingativo.

Ignorante, o coro não o avisou que, ao livrar-se da moça, ele se livraria também de si mesmo, ou do que acreditava ser. Ao pensar em sumir com ela, da maneira mais cruel que poderia arquitetar a mente perigosa, estaria se transformando em pó, por onde passam as baratas. Perderia seu reino.

O coro lembrou ainda que há outro destino misturado ao deles, e tem apenas cinco meses. É ele o motivo de tantos problemas. Um filho do herói e da moça bonita, que teria assistido ao sacrifício da mãe. Estarrecidos, ficamos sabendo que foi poupado no último momento. Ele, o inocente, não seria picado e atirado aos cães famintos. Seria condenado à orfandade e ao esquecimento, ao abrigo de menores, depois de passar de mão em mão, levado, segundo as notícias, pela esposa traída.

Mas o que tanto queria sua mãe? Queria o direito de paternidade para o filho, o reconhecimento e o sobrenome. Lembrou que o menino era fruto de dois e não de uma, quando o pai a obrigou a tomar drogas para que ele não viesse ao mundo. Mas o menino nasceu e continuou brigando para viver. Como nas peças gregas, cumprirá seu destino, sem pai e mãe.

Talvez um dia lhe contem que seu pai foi um herói de verdade no país apaixonado por futebol. Seu reino era o campo, seu trono ficava sob a trave. Ele era o todo-poderoso das defesas geniais, o homem a quem o Flamengo, que possui a maior torcida do mundo, devia usas vitórias. Rebatia pênaltis como ninguém, levou o estádio ao delírio na final contra o Botafogo. E ouvirá que sua mãe era a moça bonita que freqüentava os campos até se apaixonar pelo mais talentoso goleiro, que além de tudo tinha alta conta bancária e cabeça pequena para um corpo tão grande. Talvez lhe digam que ela só queria “se dar bem”, como tantas outras moças parecidas. Afinal, algumas se casam em cerimônias milionárias. Mas Eliza Samúdio “perdeu”, como se diz na gíria do sub-mundo.

Vivemos o tempo das ridículas “celebridades”, onde a cabeça vale pouco, desde que os pés pisem um castelo que já foi de algum nobre falido e isso vire foto de revista. Pior de tudo é ouvir e ver na Internet comentários do tipo “ela foi mau caráter, oportunista, mas não merecia morrer dessa forma…” Ou então “ela era ‘maria-chuteira’ interesseira, tinha que acabar assim mesmo…” Tanto isso é verdade que, por vários dias, Eliza Samúdio foi chamada, pelas TVs de “a ex-amante do goleiro Bruno”. Não tinha nome. Até a palavra “amante”, em desuso há muito tempo, foi recuperada para crucifica-la moralmente. As fotos vulgares, mostradas insistentemente, servem para isso. Além de ser mulher, Eliza tinha “um passado”.

Senti falta das bravas opiniões feministas, dos protestos, da lembrança da lei Maria da Penha. Eliza demonstrava ter sonhos de maior inclusão social – mas também de formar uma família com seu filho e protegê-lo. Nem ela nem Bruno tinham muita experiência de afeto e proteção familiar. Os dois personagens são trágicos desde o começo, e se aproximam pela história comum lá atrás: ambos foram abandonados pelos pais quando crianças, e esse é o legado do menino.

O que os distancia, e separa a vida da morte, é que Bruno tinha poder e dinheiro. Ganhava perto de 200 mil reais por mês só em patrocínio e salário do Flamengo. Agora os contratos foram suspensos. O garoto que confessou ter ferido Eliza e acompanhado seu martírio até o final disse que recebeu três mil e entregou ao matador. Uma vida rica e uma morte barata.

Um colega levantou uma hipótese: se Bruno estivesse na Seleção, se tivesse ido para a África do Sul, talvez a tragédia fosse evitada. Eliza sumiu dias antes do primeiro jogo. O herói não sabe lidar com a frustração e pode cometer barbaridades, diz ele. Se estivesse feliz, talvez tivesse reconhecido o filho e seus direitos, e ainda ajeitasse a situação com a mulher traída. Pode ser. Isso porque, ao ser preso, Bruno teria lamentado apenas que a Copa de 2014, para ele, já era. Era esse o seu sonho. Sua paixão era o campo, a partida, a vitória. O reino perdido. Não chorou pelo que se tornou, por Eliza ou pelo abandono do menino. Mas esse é material para os psiquiatras.

O que nós sabemos é que a arte imita a vida e muitas vezes esta supera aquela. Estamos assistindo a uma tragédia brasileira.

Rose Nogueira é jornalista e membro do grupo Tortura Nunca Mais.

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