Direitos Humanos e Sociedade

O BEM AMADO
 Republico matéria do Blog do Zé, 29/07/2010

Eleonora Rosset

O Brasil quer rir do Brasil?

Guel Arraes, o diretor do filme “O Bem amado”, pensa que sim e explica, em uma entrevista que deu a Luis Carlos Merten:

“… O que me atrai é o humor. Até por ter convivido internamente com esse mundo da política, sempre fui atraído pela peça de Dias Gomes (1962) que deu origem à novela (1973) e à série (1980). Odorico Paraguaçu virou o emblema do político brasileiro. Existem muitos Odoricos por aí e eles acham o personagem divertido, são os primeiros a rir. Mas nenhum assume que Odorico é o retrato deles, daí o meu desejo de fazer o filme.”

Vindo da televisão (Armação Ilimitada), o diretor de “Lisbela e o prisioneiro” e o “Auto da Compadecida”, filmes onde o lirismo conversava com a graça do nordeste do Brasil, em “O Bem Amado” quer falar de política. Diz ele na mesma entrevista:
“Era o personagem que me interessava, o retrato que ele fazia do Brasil. O país mudou. O Odorico da ditadura não podia ser o mesmo da democracia. E com ele mudou tudo. A sátira política virou uma farsa.”

E, realmente, o Odorico de Marco Nanini é muito diferente do de Paulo Gracindo que marcou época com seu terno de linho amarfanhado e charuto na boca.

Agora o cabelo é daquela cor alaranjada duvidosa, o prefeito veste-se de maneira espalhafatosa e usa colete, chapéu, cartola, comendas e anéis. Mais para o patético e ridículo.

Os tempos são mesmo outros e o narcisismo desabrido ataca o prefeito Odorico e faz disso a sua marca. Pavão misterioso?

Do antigo Odorico o novo só conservou o linguajar pitoresco que o povo copiava nos anos setenta e a obsessão de inaugurar o cemitério, custe o que custe. Sua administração também é marcada por todos os defeitos da politicagem e Guel Arraes, que também assina o roteiro, dá destaque às práticas fraudulentas que tanto alimentam as manchetes escandalosas dos nossos jornais.

As engraçadas Cajazeiras, senhorinhas carolas e alcoviteiras do passado, são agora três irmãs solteiras tão espalhafatosas quanto o prefeito que, querendo ser “sexy”, se insinuam para qualquer macho que apareça mas preferiam mesmo o lugar de primeira dama de Sucupira ( Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Drica Morais).

O público de “O Bem Amado” se diverte, principalmente aqueles que só gostam de rir, mas há momentos em que o ritmo do filme, muito acelerado mas repetitivo, cansa.

O elenco estelar de atores da Globo está à altura do que é pedido pela trama. São todos profissionais competentes e bem dirigidos.

Para mim, o ponto alto fica a cargo de José Wilker, que faz o cangaceiro Zeca Diabo com alma. Tem o mérito de resistir à caricatura e ser o personagem mais contundente do filme.

As paisagens de Alagoas, brevemente mostradas, dão vontade de viajar e conhecer as águas turqueza e as falésias de areia, tão fotogênicas.

E a trilha sonora sem defeito vai de Caetano Veloso, Zélia Duncan, Zé Ramalho e Jorge Mautner. Uma delícia.

Guel Arraes, filho do ex-governador Miguel Arraes, figura de proa na oposição à ditadura militar, faz uma bela homenagem a seu pai mostrando-o no grande comício das “Diretas já”, que foi um momento importante na reconquista da democracia no Brasil.

Talvez esse seja o momento mais tocante do filme quando se vê que não só de Odoricos vive a política brasileira.

E mais ainda, eu diria que pensar nas próprias “maracutaias” não faz mal a ninguém. Isso não é privilégio dos políticos.  Rir é bom e eu gosto mas por que não tirar conclusões mais amplas desse filme em tempo de eleições importantes no nosso país?

 Eleonora Rosset é psicanalista.

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