Economia

ECONOMIA BRASILEIRA EM RITMO CHINÊS
Republico matéria do Blog do Zé, 05/07/2010

Paulo Rabello de Castro

O anúncio do desempenho da economia brasileira no primeiro quadrimestre de 2010 põe em evidência duas realidades que a opinião dos conservadores resistia até aqui a admitir. Primeiro, a maior capacidade de crescer de modo sustentável, a taxas superiores aos 3% ao ano, ate então estimados como limite. Segundo, conseguir o maior crescimento conjugado com distribuição da renda e incorporacão de uma parte significativa da pobreza ao circuito do consumo. A este último fenômeno se tem dado o nome de “emergência da classe C”.

O resultado político do crescimento acelerado, que poucos previam, tem sido a explosão do grau de aprovação do governo Lula, bem acima da já elevada quota histórica de simpatia à figura lendária do presidente. Em outras palavras, o público parece exergar perfeitamente a diferenca entre promessa política e entrega efetiva de resultado.

Agora estamos diante de novo teste eleitoral, mas com uma condição diferente, pois os candidatos são novos e as plataformas ainda não aparecem bem definidas, com os contrastes que facilitam as escolhas. O principal perigo do Brasil, neste momento, seria tentar caminhar de salto alto, sem consideração suficiente aos riscos que se apresentam à continuidade do sucesso alcançado. Existe uma diferença de natureza entre nosso crescimento em ritmo chinês, em relação às fontes do crescimento verificadas na experiência da própria China. Os chineses transformaram quase metade da renda nacional em poupança (cuja definição é o não-consumo). Esta poupança é canalizada para alargar os investimentos. A China cresce muito porque joga enorme esforço na postergação do consumo, enquanto que a revolução brasileira, nos anos recentes, tem sido a de haver alargado a faixa e o ritmo do consumo, não a poupança.

Refletindo um minuto sobre isso, surge a dúvida sobre que fatores produzem alargamento do consumo interno sem que os investimentos sejam diretamente prejudicados. A resposta está no setor externo da economia, que num dado momento, esteve ajudando a “pagar as contas” do consumo ampliado – isso acontece quando o saldo externo em conta corrente diminui e se torna negativo – ou caso o setor governo, como um todo, ou seja, o setor público, esteja reduzindo o ritmo RELATIVO do seu dispêndio corrente em favor de um nível ampliado de investimento governamental. Em parte, isso também aconteceu nos dois últimos anos.

No caso brasileiro recente, o fator preponderante foi a possibilidade de se contar com o setor externo para nos pagar as contas. O ocorrido é bem simples de entender: os preços das commodities que exportamos sofreram um choque positivo de ganhos, tão expressivo a ponto de propiciar pagamento antecipado de compromissos, como os com o FMI e os bancos na rolagem de crises passadas, passando a gerar saldos sempre ampliados de reservas internacionais. O Banco Central conseguiu, dessa maneira, e gradualmente, desemperrar a máquina do crédito interno, enquanto o governo usava inteligência política para dar força à irrigacão creditícia na base da pirâmide social, primeiro através do crédito consignado e, em seguida, o programa “Minha casa, minha vida” entre outros. Enquanto isso, a redistribuição fiscal da arrecadação pública prosseguiu acelerada, pois o governo não arrefeceu seu gasto corrente, nem deixou de imprimir ênfase social nesse gasto.

Pode-se chamar essa formulação econômica de “modelo de alto consumo e distribuição” assim se entendendo como tal porque a PROPORÇÃO entre consumo e poupança no país ainda pende fortemente para o primeiro. Foi uma estratégia extremamente feliz e oportuna politicamente. Mas deve ser enquadrada no tempo em que aconteceu, como uma necessária distensão social, num país afligido por uma iníqua distribuicão de renda. Mas não terá sustentação no tempo, a menos se quisermos ampliar o grau de financiamento do nosso consumo por capitais de fora. Os EUA fizeram isso na última década, mas agora amargam uma dependência perigosa e um desequilíbrio forte de pagamentos. O Brasil, se seguir por essa senda, já sabe o que lhe acontece no passado, uma crise cambial com empobrecimento da base da pirâmide de renda, pondo a pique os avanços conquistados. Não é por aí.

Os candidatos devem buscar apresentar, de modo simples e compreeensível, o MODELO DE ALTO INVESTIMENTO que deve, gradualmente, tomar conta da cena econômica, em substituição ao modelo de alto consumo. Como disse, não se trata de consumir menos, nem de distribuir renda de modo mais lento. É uma alteração gradual da proporção entre consumo e investimento, em favor deste, na equação da renda nacional. A boa noticia, excelente por sinal, é que o não-consumo de hoje será o maior consumo amanhã pois, obviamente, ninguém estaria disposto a sacrificar consumo hoje se não fosse para desfrutar de ainda maior consumo no ano seguinte. A explicação disso também é simples: um investimento adicional gera empregos adicionais que não ocorreriam se o gasto fosse de consumo. Como o emprego ampliado é renda futura ampliada, no ano seguinte haverá mais gente gastando. O modelo de alto investimento será o desafio de comunicação política nesta eleição e o público estará atento a esta explicação.

Paulo Rabello de Castro é economista, vice-presidente do Instituto Atlântico chairman da SR Rating e sócio – diretor da RC Consultores. Contato:

paulo@rcconsultores.com.br

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