O velho, o que passou: 2011

Republico matéria do Jornal do Brasil, 01/01

Selvino Heck

Final de dezembro, a gente olha para trás, vê que o ano está passando/já passou, trirrápido, como diria o gaúcho, cada vez mais rápido. E aí você dá-se conta de que já faz quase um ano em que os sessenta – sessentinha/sessentão/sexagenário – se completaram. Envelheci, mas nem tanto. As pernas às vezes não acompanham o pensamento, a memória falha mais que o normal, o cansaço chega mais cedo, as noites são mais mal dormidas, o silêncio e a ranzinzice crescem de tamanho. Mas 2011, que está chegando ao fim, não foi de todo ruim. Ou melhor, foi até interessante, embora os sessenta recémchegados e sem volta.
Na Secretaria-Geral da Presidência da República, 2011 foi de muito trabalho e (re)organização. O ministro Gilberto Carvalho deu o tom: a participação social deve tornar-se método de gestão e de governo. Se possível e com o tempo, como sempre brincamos falando sério, inclusive nas Forças Armadas e no Copom (Conselho de Política Monetária). A Secretaria-Geral conversou o ano inteiro com os movimentos sociais, ouviu, debateu, dialogou, organizou mesas de diálogo e negociação, fez-se presente, in loco, seja pelo ministro, seja pelos assessores, no palco dos acontecimentos: mobilizações de trabalhadores por salário, Marchas dos movimentos sociais do campo, conselhos e conferências de todos os tipos e tamanhos, construção do PPA-2012-2015 (Plano Plurianual), ampliação do debate sobre os ODMs (Objetivos do Milênio), mobilização da juventude, debates sobre o projeto de desenvolvimento em curso, seus avanços, limites e impasses.

O Setor de Mobilização Social e Educação Cidadã, que faz parte da Secretaria Nacional de Articulação Social, e responsável pela Rede de Educação Cidadã (Recid), ampliou seus processos de formação e educação popular, à luz de Paulo Freire: envolveu mais os movimentos sociais nas suas oficinas e atividades, articulou os diferentes setores do governo federal que proporcionam processos educativo-formativos, de várias formas e orientações pedagógicas, para atuarem mais coletiva e intersetorialmente.

O governo Dilma, ainda começando, lançou programas importantes como o Brasil sem Miséria, o Viver sem Limites para as pessoas com deficiência, o Programa de combate ao crack, que levou à aprovação pelo Congresso da Comissão da Verdade. A crise econômica vive rondando o Brasil e a América Latina. Todo cuidado é pouco para não haver contaminação geral. É preciso reforçar o mercado interno e a indústria nacional, garantir o emprego e a continuidade da melhoria da renda de brasileiras e brasileiros, garantir as obras da Copa e da Olimpíada em tempo hábil.

Não foi, porém, tudo fácil, sem embates e conflitos. Como combinar desenvolvimento com a preservação do meio ambiente? Como garantir as obras necessárias para garantir energia e infraestrutura sem agredir os direitos dos pobres à terra, moradia? Como avançar na recuperação da memória e da verdade dos tempos da ditadura? Como avançar na distribuição de renda e na democracia econômica e social?

No mundo, o povo, em especial os jovens, foi para a rua e para as praças. Pela democracia, nos países árabes, que continua não garantida. Contra o ajuste fiscal do FMI e dos governos e contra o desemprego e a fome na Grécia, na Espanha, na Itália, em Portugal, na Europa inteira e nos EUA. A Europa caminhou para a direita. A banca e o mercado financeiro estão preservando seus lucros e esmagando a população.

O ano está terminando, 2012 se avizinha. Mas 2011 não será esquecido tão depressa. O mundo entrou no turbilhão das revoltas, das greves gerais, dos ‘Occupy’ e dos ‘Indignados’. A fome aumentou nos países pobres da África e nos países ricos da Europa e na América do Norte. Um livro saiu no Brasil — A privataria tucana —, com grande sucesso editorial e na internet, mas completamente esquecido pela grande imprensa, recuperando as histórias e falcatruas das privatizações dos anos 90.

Foram-se muitos, amigos/as e companheiros/as: Cléo Bonotto, professor gaúcho; Isabel, da Recid-SE; padre Agostinho Pretto, militante e pastor; Egídio Brunetto, do MST; lutadores e lutadoras.

Para marcar a história e 2011, uma foto ficou gravada na mente e no coração de brasileiros e brasileiras. Uma jovem de 22 anos está sentada numa cadeira, mãos sobre as pernas, olhar em pé, firme, forte, penetrante, altivo. Ao fundo, dois senhores, militares, tapam os olhos para não serem vistos e reconhecidos. A foto pode virar foto de camiseta, e ser divulgada ao vento, na rua e nas praças. É Dilma Rousseff, presa por três anos, torturada por lutar por democracia, sendo interrogada em 1970. Em 2011 é a primeira mulher presidenta da República.

A foto diz tudo. Os anos de chumbo passaram e não voltarão. Depois do sofrimento e das mortes, a democracia acontece. 2011 lembrou isso. Agora os tempos são outros: tempos de desenvolvimento com soberania, tempos de acabar com a pobreza e a miséria, tempos de vez e voz para pobres e trabalhadores, tempos de cidadania, direitos humanos e liberdade.

Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

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