Por que as mulheres menstruam?, por Felipe A. P. L. Costa

POR LUIS NASSIF ONLINE

Por que as mulheres menstruam?

por Felipe A. P. L. Costa

Como escrevi em artigo anterior, ‘A medicina darwiniana’, a formação tradicional, sem qualquer contato com a teoria evolutiva, deixa os médicos (e outros profissionais da área de saúde) inteiramente desamparados diante de questões fundamentais. Exemplo curioso é o caso da menstruação – por que as mulheres menstruam?​Bons ginecologistas devem saber como a menstruação opera, mas raros são os que se interrogam sobre o por quê do fenômeno. Tal desconhecimento pode resultar em barbeiragens. Por exemplo, alguns médicos andam a sugerir que mulheres em idade reprodutiva sejam submetidas a cirurgias, visando livrá-las desse (aparentemente) despropositado ‘incômodo’ (se eu tivesse ovários, talvez não me atrevesse a colocar as aspas). Sugestões drásticas como essa, no entanto, deveriam estar fundamentadas em uma compreensão integrada, envolvendo tanto a fisiologia como a história evolutiva da menstruação. Ocorre que esta última, ao contrário daquela, ainda é uma ilha pouco habitada, como veremos a seguir.

Menstruação: aspectos funcionais

O sistema reprodutor feminino passa, aproximadamente a cada 28 dias, por dois ciclos: o ovariano, durante o qual ocorre a ovulação, e o uterino (ou menstrual), durante o qual se dá a menstruação. Na primeira metade de um ciclo ovariano normal, um oócito primário matura, tornando-se oócito secundário (óvulo), e este é expelido do ovário (ovulação) em direção ao interior da trompa uterina. Em seguida, as células do ovário envolvidas na maturação do oócito formam uma massa de tecido endócrino, denominada corpo lúteo, que produz hormônios (estrogênio e progesterona) por cerca de duas semanas. Se nesse período o óvulo liberado não for fertilizado, o corpo lúteo degenera.

Cerca de cinco dias após o início do ciclo ovariano, começa o ciclo uterino, no qual um novo revestimento interno do útero (endométrio) é construído e, caso não haja a chegada e o implante de um óvulo fertilizado, destruído. A preparação do útero alcança seu ponto máximo cerca de cinco dias após a ovulação e assim permanece por mais nove dias. Se um óvulo fertilizado não se fixar nesse período, o endométrio entra em colapso, se desprende e flui para fora do corpo pela vagina – esse fluxo é a menstruação. A maioria das mulheres perde em torno de 50 mL de sangue e células epiteliais durante o período menstrual, que em geral dura de quatro a cinco dias. (Cabe registrar que a perda de sangue é um fenômeno relativamente restrito, mesmo entre os mamíferos placentários – além dos seres humanos, apenas as fêmeas de outros primatas, alguns morcegos e mais uma ou outra espécie experimentam algo semelhante.)

A preparação para o início desses processos cíclicos mensais normalmente acontece quando a menina tem entre nove e dez anos. A primeira menstruação (menarca) ocorre por volta dos 12 anos, e a última costuma se dar quando a mulher tem entre 45 e 55 anos, fase em que o corpo feminino apresenta diversas alterações fisiológicas. A menstruação passa por períodos de atrasos ou suspensões até cessar definitivamente. É a menopausa, o fim da vida reprodutiva da mulher.

O conteúdo dos parágrafos acima bem pode ser visto como um resumo, sucinto e grosseiro, de como a menstruação e processos associados ocorrem nas mulheres. Um especialista nos contaria uma história bem mais extensa e detalhada, enquanto um grande estudioso do assunto provavelmente nos levaria mais longe, revelando os mais intrigantes detalhes moleculares do processo. Por mais extensos e detalhados, no entanto, tais relatos não deixariam de ser respostas à pergunta: como o fenômeno da menstruação se desenrola? Uma resposta precisa e completa para esse tipo de pergunta não precisa oferecer mais que isso: uma explicação (hipotética) envolvendo a descrição de eventos que se sucedem, ocorrem simultaneamente ou se influenciam mutuamente no interior do corpo. É justamente isso, e apenas isso, o que encontramos nos melhores livros-texto de fisiologia humana.

Menstruação: aspetos evolutivos

Uma descrição da fisiologia da menstruação, por mais detalhada e extensa que seja, não responde, por si só, a outro tipo de pergunta: por que as mulheres menstruam? Ao fazer essa pergunta, igualmente válida e pertinente; adquirimos uma perspectiva nova da questão – i.e., o assunto permanece o mesmo, mas o enfoque muda.

Em biologia, quando perguntamos o porquê de determinado fenômeno ou processo, já não estamos lidando apenas com a fisiologia do corpo dos seres vivos, mas com a história dessa fisiologia – i.e., como e por que tal processo evoluiu ao longo das gerações. No nosso caso, indagar “por que as mulheres menstruam?” equivale a perguntar: “Por que a menstruação evoluiu?” O que está em jogo agora é o modo como o processo da menstruação (tal qual o conhecemos) evoluiu. Neste ponto, podemos refazer a pergunta, levando em conta os termos correntes da atual teoria da evolução por seleção natural: a evolução da menstruação foi ou não um processo impulsionado por vantagens adaptativas?

Embora essas duas questões – como e por quê – estejam interligadas, elas têm um grau significativo de autonomia, a ponto de serem investigadas em separado. Além disso, a ‘tradição do como’ é mais antiga e mais simples do que a ‘tradição do por quê’, e por isso a biologia tem sido mais bem-sucedida na formulação de explicações funcionais para os fenômenos da vida. De um ponto de vista pragmático, a explicação funcional é (ou parece ser) suficiente para nos orientar frente a muitas questões do dia a dia. É por isso que um ginecologista, por exemplo, pode orientar de modo satisfatório mulheres com distúrbios no sistema reprodutor (ciclos menstruais irregulares, sangramento excessivo etc.), mesmo quando nada sabem sobre o ‘porquê’ da menstruação – i.e., sobre os fenômenos e processos que moldaram a evolução do corpo humano.

A rigor, até bem pouco tempo atrás não havia uma teoria biológica que explicasse de modo satisfatório a evolução da menstruação, embora os detalhes fisiológicos sejam bem conhecidos. A situação começou a mudar nas últimas décadas, quando surgiram as primeiras hipóteses explicativas de cunho evolutivo, trazendo várias ideias interessantes e promissoras. Um exemplo é a hipótese formulada pela bióloga estadunidense Margaret ‘Margie’ Profet, segundo a qual a menstruação teria evoluído como um mecanismo de defesa contra micróbios nocivos trazidos pelos espermatozoides.

A hipótese de Profet apareceu em um artigo publicado em 1993 e, embora desde então tenha encontrado mais restrições que apoio, mexeu com as ideias sobre o assunto. Nesse sentido, pode ser considerada um marco. Em 1996 apareceu outra hipótese adaptativa, proposta pela antropóloga estadunidense Beverly Strassmann. Além de argumentar contra as ideias de Profet, Strassmann apresentou sua própria explicação, a de que a menstruação teria evoluído por razões essencialmente econômicas – construir, destruir e reconstruir o endométrio consumiria menos recursos do que mantê-lo permanentemente preparado para receber um ocasional embrião.

Coda

Explicações adicionais (adaptativas ou não) apareceram depois disso, como a hipótese de que a menstruação teria evoluído como um indicador externo do ciclo reprodutivo feminino. Até agora, porém, nenhuma delas parece ter se tornado uma hipótese hegemônica entre os estudiosos. De resto, ainda que todas as propostas já publicadas venham a se revelar inapropriadas e sejam substituídas em futuro próximo, não há dúvida de que o enfoque evolutivo lançou luz nova sobre um assunto ainda cercado de preconceitos, erros e mal-entendidos, inclusive entre os especialistas.

Por exemplo, muitos especialistas em fisiologia humana, sem qualquer formação em biologia evolutiva, encaram as perguntas levantadas por biólogos evolucionistas como excessivamente ‘selecionistas’ (“a menstruação, afinal, não seria uma adaptação”) ou, pior ainda, como sem sentido. Entretanto, com exceção talvez desses últimos (os fisiologistas para quem “fenômenos e processos fisiológicos são o que são, e pronto”), dificilmente algum estudioso da reprodução humana discordaria da pertinência das perguntas que a biologia evolutiva vem levantando. Por que as mulheres menstruam? Por que não manter a camada uterina (endométrio) até que o bebê precise dela? E mesmo que o descarte do endométrio seja uma medida econômica, por que o sangramento copioso? Por quê?

[Nota: artigo publicado originalmente na edição n. 257 (2009) da revista Ciência Hoje; para detalhes a respeito do livro mais recente do autor, O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017), inclusive sobre a aquisição por via postal, ver aqui ou aqui.]
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