Sinais letais

POR 247, 20/04/2020

“Penso que o Covid-19 é um desses sinais, ainda não derradeiro, mas letal o suficiente a ponto de abalar os fundamentos do nosso tipo de civilização”, escreve o teólogo Leonardo Boff

Publicado originalmente no site A Terra Redonda

O ser humano é a maior ameaça à vida na Terra. Acumula meios de destruição nos quais foram investidos, só em 2019, um trilhão e 822 bilhões de dólares: armas letais, totalmente ineficazes face ao invisível coronavírus

Mais e mais cresce a consciência de que a Terra e a humanidade tem um destino comum, pois formam uma única e complexa unidade. Foi o que os astronautas da lua ou de suas naves espaciais nos testemunharam. Uma porção dela é inteligente e consciente: são os seres humanos. Desde a mais alta ancestralidade a Terra era vista como a Grande Mãe viva e geradora de todo tipo de vida.

Modernamente, cientistas vindos das ciências da vida e do universo comprovaram, empiricamente, que ela não só possui vida, mas ela mesma é viva. Emerge como um ente vivo, um superorganismo que se comporta como um sistema que combina todos os fatores e as energias cósmicas de tal forma que sempre se mantém viva e que produz permanentemente as mais diversas formas de vida. Foi denominada Gaia, nome grego para designar a Terra como um ser vivo.

Ao largo de sua história, o ser humano entreteve, dito de forma sumária, três tipos de relação para com a Terra e a natureza. O primeiro foi de “interação”: interagia harmonicamente e retirava o necessário para viver. O segundo foi a “intervenção” quando, há cerca de dois milhões de anos, surgiu o homo habilis que usava instrumentos para intervir na natureza e garantir melhor o seu sustento. Tudo culminou no neolítico, há 10-12 mil anos, quando se implantou a agricultura com o manejo de sementes e de espécies também de animais.

O terceiro foi a “agressão” típica dos tempos modernos. Usando todo um maquinário, até robôs e inteligência artificial, o ser humano montou uma sistemática agressão à natureza para extrair dela todos os recursos para sua comodidade e também para acumulação de riqueza material. Essa guerra de agressão foi levada a todas as frentes: no solo, subsolo, no ar e nos oceanos. Ela se deu também entre os seres humanos que são a parte da Terra com inteligência e consciência.

Michel Serres, filósofo francês que frequentou várias áreas do saber, escreveu em 2008 um livro com o título Guerra mundial (Bertrand Brasil). Descreve a história dramática das agressões humanas a todos os ecossistemas e principalmente as guerras entre os próprios seres humanos. Segundo os dados aduzidos, a partir de três mil anos antes de nossa era até o presente foram mortos em conflitos, três bilhões e oitocentos milhões de seres humanos. Só no século XX foram 200 milhões.

Inauguramos, segundo alguns cientistas, uma nova era geológica, o “antropoceno”e o “necroceno”: o ser humano é a maior ameaça à vida na Terra; com os meios de destruição que maneja mostrou-se uma máquina de morte (necroceno). Em função disso ainda em 2019 investiram-se um trilhão e 822 bilhões de dólares em armas letais, totalmente ineficazes e ridículas face ao invisível coronavírus.

A Terra sentiu os golpes e não deixou de reagir: pelo aquecimento global, pelos tsunamis, pelos eventos extremos, as longas estiagens ou as prolongadas nevascas, pelos degelos e pelo caos climático.

A reação, verdadeira represália da Terra, vem pelos vírus (existem cerca de 200 mil) cada vez mais frequentes e violentos, como o zika, a chicungunya, o ebola, o SARS, a gripe suína e aviária e outros. Eles estavam tranquilos em seus habitats. Mas, o desmatamento feroz, a erosão da biodiversidade e a urbanização crescente do planeta, fizeram com que perdessem seus habitats e buscassem outros, passando dos animais aos seres humanos. Eles não vivem per si; precisam de células hospedeiras para se reproduzir. Assim é com o atual coronavírus.

A hipótese que proponho é que, neste momento, os papéis se inverteram. Sendo um superorganismo vivo, a Terra reage, contra-ataca e faz a sua revanche contra a Humanidade. Com razão, pois, como diz o Papa na sua encíclica ecológica “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos” (n, 53).

Agora, irada, Gaia brada: “Basta! Sou mãe generosa, mas tenho meus limites vitais intransponíveis. Preciso dar severas lições a esses meus filhos e filhas rebeldes e violentos. E se não aprenderam a interpretar os sinais que lhes enviei e não me respeitarem e cuidarem de mim como sua Mãe, posso não mais querê-los sobre o meu solo”.

Penso que o Covid-19 é um desses sinais, ainda não derradeiro, mas letal o suficiente a ponto de abalar os fundamentos do nosso tipo de civilização. Biólogos temem que possamos ser vitimas do assim chamado Next Big One (NBO), aquele último tão letal e inatacável, capaz de pôr fim à espécie humana.

O coronavírus nos lança um alerta. Como disse o sociólogo e ecólogo Bellamy Fosters: “A sociedade terá que ser reconstituída sobre uma base radicalmente nova. A escolha que temos diante de nós é nua e crua: a ruína ou a revolução”.

Na mesma linha de pensamento afirma a física nuclear e ecologista indiana Vandana Shiva: “Um pequeno vírus pode nos ajudar a dar um grande passo à frente para fundar uma nova civilização planetária ecologista, baseada na harmonia com a natureza. Ou, então, podemos continuar vivendo a fantasia do domínio sobre o planeta e continuar avançando até a próxima pandemia. E, por último, até a extinção. A Terra seguirá, conosco ou sem nós”.

Leonardo Boff é filósofo, teólogo e professor aposentado de Ética da UERJ

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