Vai ter Olimpíada. A conferir, qual será o espaço para o espírito esportivo

Da Rede BRasil Atual

Nenhum movimento cultivou um sucedâneo do “não vai ter Copa”. Desde a escolha do Rio, o país avançou em vários aspectos e regrediu em outros. Não se sabe qual será o espaço para o espírito esportivo
por Alessandro Lucchetti, para Revista do Brasil publicado 17/07/2016 12:35
COB (Pan 2015)
isaquias queiroz

Palavra de ordem não há. Mas a imprensa comercial agarra-se ao estado de calamidade no Rio de Janeiro e até ao zika vírus para decretar o fracasso dos Jogos – da gigantesca empreitada de organizar o maior evento do planeta ao esforço do esporte brasileiro para se situar entre as dez maiores potências olímpicas do mundo (pelo número de pódios, não necessariamente de ouros). Sediar a Olimpíada não foi um louco disparate do ­ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo Ricardo Leyser, homem por trás do projeto esportivo brasileiro. A história do processo que vai culminar com a frase “estão abertos os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro”, no dia 5 de agosto, no Maracanã, começou bem antes.

As origens remetem a uma competição bem menos glamurosa, os Jogos Sul-Americanos de 2002. Devido à crise econômica argentina, Córdoba, a sede designada, abriu mão do evento. Numa reunião emergencial da Organização Desportiva ­Sul-Americana (Odesur), em Assunção, em 18 de abril daquele ano, foi designada uma nova sede. O Brasil levou a melhor, superando o Chile por 11 a 3.

Leyser, lotado no gabinete da então secretária paulistana de Esportes, Nádia Campeão, constatou o despreparo nacional e o prazo apertado para receber uma competição poliesportiva modesta. A insuficiência ia além de instalações esportivas obsoletas e rede de comunicações desatualizada. Saindo do mundo do futebol, e de ilhas de excelência, como vôlei, judô e vela, o país revelava grande despreparo para competir. Um exemplo folclórico: às vésperas das eliminatórias, as brasileiras da patinação de velocidade estavam preocupadas porque sabiam apenas patinar em linha reta e temiam as curvas do circuito montado no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo.

Presidente do Comitê Olímpico desde 1995 e entusiasta do fracassado projeto Brasília 2000, Carlos Arthur Nuzman já acalentava o projeto de ver o Brasil sediar os Jogos. Nenhuma cidade brasileira tinha condições de receber a competição que Cuenca, no Equador, organizara em 1998. As mais recentes experiências de competições poliesportivas disputadas em solo nacional não eram tão recentes: os Jogos Pan-Americanos de São Paulo-1963 e a Universíade de Porto Alegre, no mesmo ano. A solução encontrada pelo Comitê Organizador foi descentralizar: Belém e os estados de São Paulo, Paraná e Rio receberam disputas do Odesurzão-2002.

A experiência animou Nuzman, que colou sua imagem à ascensão do vôlei brasileiro. Antes restrito a praias e escolas, ganhou ginásios lotados de torcedores e uma galeria de títulos internacionais. O passo seguinte seriam os Jogos Pan-Americanos de 2007. “Ao fazer o trabalho de preparar o Pan, constatamos a completa insuficiência de estrutura. Foi um choque em termos de tecnologia, comunicação, transporte. Mas realizamos o evento, e a avaliação internacional foi melhor do que a nacional. O Pan de 2007 demonstrou e afirmou a capacidade do Brasil de realizar grandes eventos”, afirma Leyser.

Foram cometidos erros colossais, do tamanho de um velódromo com pista de pinheiro siberiano projetado sem consulta à União Ciclística Internacional. As instalações foram construí­das com o duplo propósito de receber disputas do Pan e convencer o Comitê Olímpico Internacional de que o Brasil já tinha parte das instalações para a Olimpíada de 2016. Sem conformidade, o velódromo foi desmontado e levado para Santo Antônio do Pinhal (SP), onde suas peças enferrujam. Um novo – e caríssimo – foi erguido com atraso.

Desastres com dinheiro público à parte, a experiência do Pan resultou numa candidatura competitiva e vencedora em 2009, quando o COI apontou o Brasil como sede dos XXIX Jogos Olímpicos da Era Moderna. “Identificamos, ao preparar o projeto, todos os problemas que teríamos de sanar para a candidatura não perecer, e planejamos o que fazer caso ganhássemos”, recorda Leyser.

Enfronhado nos meandros do Ministério do Esporte por 13 anos, ele considera que a Rio 2016 deixará dois legados. “As obras são tocadas pela prefeitura do Rio. Vão promover modernização e salto de qualidade na estrutura de transporte da cidade. Mais de R$ 20 bilhões foram investidos em transporte público”, diz. Além do urbano, há o legado esportivo. O Brasil tem hoje um campeão mundial de canoagem, Isaquias Queiroz. A paulista Aline Silva é vice-campeã mundial de luta olímpica, e uma pernambucana, Yane Marques, medalhista olímpica no pentatlo moderno. Há outros gratos exemplos, e mais medalhas por vir.

A infraestrutura esportiva do país, antes defasada, agora inclui a Rede Nacional de Treinamento­. Esse projeto deu origem à construção, reforma e equipagem de centros para ginástica, judô, tiro com arco, luta olímpica, handebol, saltos ornamentais, ciclismo e canoagem, entre outros esportes. A diretriz governamental foi espalhar esses centros por todo o território nacional. Macapá conta hoje com uma pista de atletismo certificada pela Associação Internacional das Federações de Atletismo (Iaaf, na sigla em inglês). No caso do esporte mais icônico dos Jogos, o projeto se fundou numa parceria com universidades federais.

O PCdoB, partido que comandou o Ministério do Esporte de 2003 a 2014, com Agnelo Queiroz, Orlando Silva e Aldo Rebelo, superou eventuais ranços ideológicos e formulou parceria com as Forças Armadas, que comportam hoje modernas instalações esportivas. Essa aproximação inclui a realização dos Jogos Mundiais Militares de 2011, no Rio.

A busca de conhecimento ultrapassou fronteiras. Um técnico espanhol de canoagem, um técnico sul-coreano de tiro com arco, um italiano do tiro, um ucraniano da ginástica e um cubano do boxe, entre muitos outros, contribuíram para preparar a atual geração de atletas para esta Olimpíada.

O Brasil tem como meta ficar entre os dez melhores. A sorte está lançada. Porém, ela terá sido precedida por muito planejamento, investimento, erros e acertos. Uma conclusão já se apresenta, antes mesmo de qualquer brasileiro desfilar na cerimônia de abertura do evento: o esporte do país nunca mais será como antes.

Para onde vamos?

O país carente de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do esporte começou a engatinhar no enfrentamento desse déficit em 2005, com a criação do programa Bolsa Atleta. Oito em cada dez competidores, dos 178 brasileiros, já garantidos nos Jogos até o fechamento desta edição são apoiados pelo programa, com bolsas entre R$ 5 mil e R$ 15 mil.
Entre eles, 72 recebem a Bolsa Pódio, uma categoria do Bolsa Atleta. A lista exclui os atletas de modalidades coletivas ainda não convocados, como handebol, vôlei, futebol, polo aquático e rúgbi, e os de esportes individuais ainda em disputa por classificação. A delegação nacional contará na Olimpíada com 442 atletas.

Lançado em 2012, o Plano Brasil­ Medalhas se propõe a preparar as equipes que defenderão o país nos Jogos do Rio, formar novas gerações de atletas e construir, reformar e equipar centros de treinamento Brasil afora. Os atletas dispõem de treinadores – em muitos casos, estrangeiros de alto nível, além de materiais para treinamento e competição, como os coletes e capacetes com tecnologia para aferição de pontos do taekwondo, além de recursos para viagens para competições internacionais, intercâmbio e períodos de treinos no exterior.

Se a meta brasileira é se colocar entre os dez países com maior número de medalhas, nos Paralímpicos a projeção é uma posição entre os cinco melhores. Em termos de estrutura, o Centro Paralímpico só perde para os locais de preparação da Ucrânia e China, ficando à frente de seus pares dos Estados Unidos, Rússia, Alemanha, Reino Unido e Canadá, entre outros.

Parte do Plano Medalhas, a Bolsa Pódio apoia diretamente atletas de modalidades individuais classificados entre os 20 primeiros do ranking internacional. Desde que foi implementado, em 2005, pelo presidente Lula, o programa investiu R$ 640 milhões e já beneficiou mais de 17 mil brasileiros, com mais de 44 mil bolsas para diversos estágios de desenvolvimento desde a iniciação até o topo do desempenho.

O programa Bolsa Pódio foi mal utilizado por atletas que não tinham necessidade de receber dinheiro público. O caso mais gritante foi o de Peter Dirk Siemsen. O pai do presidente do Fluminense é um velejador octogenário, um dos advogados mais respeitados do Brasil. Mas fez questão de preencher formulário para receber R$ 22,2 mil anuais.

Mais necessitado, Davi Albino, atleta brasileiro da luta greco-romana, tem o perfil imaginado pelos formuladores. O programa foi concebido para lutadores com essa trajetória de vida. Os recursos federais ajudam atletas que não teriam muita chance de prosperar na modalidade sem um empurrão federal.

Em entrevista ao portal IG, Albino declarou que não tinha perspectivas e que o esporte mudou sua vida. “Quando recebi minha primeira convocação, em 2005, não ligava muito para a luta, ia treinar no Centro Olímpico por treinar, porque lá dava lanche, dava passe (de ônibus). Depois que fui chamado para a seleção brasileira comecei a pegar mais amor”, relatou. “Eu evitava sair, ficar bebendo, queria estar na seleção. A luta me abriu o mundo. Quem conhece o Capão Redondo (bairro no extremo sul da cidade de São Paulo) sabe que a vida é difícil. Vejo­ que muitas pessoas de lá estão me mandando força e querem me assistir lutando. Isso é muito bom.”
As boas chances

Basquete masculino
O Brasil já tem uma geração de jogadores experientes, com anos de prática na NBA, a liga norte-americana, e/ou em ligas importantes da Europa, como a espanhola. Liderados por Rubén Magnano, campeão olímpico comandando a Argentina em 2004, podem recolocar o Brasil no pódio olímpico. O basquete masculino brasileiro foi bronze em 1948, 1960 e 1964. Os destaques são o armador Marcelinho Huertas, do Los Angeles Lakers, o armador Leandrinho e o ala/pivô Anderson Varejão (ala/pivô), ambos do Golden State Warriors, e o pivô Nenê, do Washington Wizards, além do ala/pivô Augusto Lima, do Real Madrid.

Vôlei
A seleção feminina, bicampeã olímpica, é candidata ao pódio novamente. O masculino, prata em 2008 e em 2012, e campeão em 2004, pode ser de novo, como pode cair nas quartas de final.

Atletismo
Fabiana Murer é esperança solitária. Ouro no Mundial de Daegu, em 2011, compete centímetro a centímetro no salto com vara com a cubana Yarisley Silva, a neozelandesa Eliza McCartney, a grega Ekateríni Stefanídi, além das norte-americanas. Não será fácil.

Natação
O Brasil não terá Cesar Cielo, mas Bruno Fratus, quarto nos 50 metros livre em Londres, é muito competitivo. Thiago Pereira, o 4x100m livre. Há esperança na água.

Futebol masculino
Dunga se foi, e isso é ótimo. O treinador Rogério Micale, livre, pode conduzir o Brasil ao tão sonhado ouro olímpico, contando com Neymar e cia.

Pentatlo moderno
O Brasil mal sabia o que era pentatlo moderno. Até surgir Yane Marques, de Afogados da Ingazeira, interior de Pernambuco. Bronze em Londres, ela quer mais.

Judô
Ketleyn Quadros conquistou, em 2008, o primeiro bronze da história do judô feminino brasileiro em Jogos Olímpicos. Em 2012, veio o primeiro ouro, com Sarah Menezes. No Rio, a piauiense luta pelo bi. Mas há outras chances: Mayra Aguiar, Maria Suelen, Érika Miranda, Rafaela Silva. No masculino, o pesado Rafael Silva, o experiente Tiago Camilo e Felipe Kitadai já sabem o caminho do pódio olímpico.

Ginástica olímpica
Arthur Zanetti, atual campeão olímpico nas argolas, tem grandes chances de repetir presença no pódio. E Diego Hypólito, que já era para ter subido, pode, aos 30 anos, conquistar medalha no solo, caso controle os nervos. Já admitiu que “amarelou”.

Vela
Martine Grael, ao lado de Kahena Kunze, quer continuar provando que é uma legítima velejadora da família Grael, um nome que o brasileiro associa a medalha olímpica na vela desde 1984. As duas são as atuais campeãs mundiais da classe 49er. Jorginho Zarif, na Finn, é outro ótimo nome.

Vôlei de praia
Larissa/Talita, Alison/Bruno Schmidt, Ágatha/Bárbara, Evandro/Pedro Solberg. Não se podem descartar as chances de medalha de dupla brasileira alguma nessa modalidade. Em casa, com forte apoio da torcida, as chances, já altas em qualquer lugar, aumentam.

Entrincheirados em uma organização não governamental chamada Atletas pelo Brasil, cerca de 60 atletas e ex-atletas brasileiros que não aceitam mais a pecha de alienados travam o que consideram ser o bom combate. Com a mesma fome de pontuar que apresentava quando subia para enfrentar o bloqueio cubano, Ana Moser, uma das líderes mais destacadas do coletivo, faz críticas pesadas ao processo de formulação de uma tão sonhada política nacional de esportes. Miragem?

“Acho que as pessoas incumbidas de organizar os Jogos Olímpicos no Brasil correram atrás para organizar, construir o que tinha que construir, treinar quem tinha que treinar, contratar os treinadores estrangeiros que tinham que contratar. E isso tudo para não fazer feio no quadro de medalhas. Mas treinaram atletas feitos. Quero saber como vão fazer, no futuro, mais atletas.”

Ana Moser sempre foi mulher de ação. “Criou em 2001 o Instituto Esporte & Educação, que desenvolveu e dissemina uma metodologia de esporte educacional, com objetivo de ampliar e qualificar a prática de educação física e esporte em todo o Brasil”, diz sua ficha no site da Atletas pelo Brasil. “Empreendedora social com várias premiações, e sócia fundadora do Todos pela Educação, da Atletas pelo Brasil e da Rede de Esporte pela Mudança Social (Rems).”

No final de outubro passado, você poderia encontrar Ana sob e sobre o calor de Palmas, porque na capital de Tocantins o calor vem do sol, ricocheteia no solo e é distribuído até pelo vento. A vice-campeã mundial de 1994, bronze em Atlanta-1996, todas essas pessoas que são sempre ela, estavam lá à frente da Caravana do Esporte, que tem o apoio e os recursos da Disney, proprietária do canal ESPN Brasil. Era época dos Jogos Mundiais Índigenas. Ana, 47 anos, catarinense de Blumenau está no Caravana há dez anos. A primeira expedição foi para Alcântara, no Maranhão. O projeto começou modesto, e já passou por mais de 600 cidades do Brasil, com direito a uma incursão pela África do Sul, no ano em que a Copa do Mundo foi disputada naquele país, em 2010. “A Caravana é uma tecnologia brasileira, que deverá ser exportada, porque é referência internacional na área”, diz.

A atacante das cortadas fulminantes tem dificuldade para acompanhar o passo de tartaruga em que avança (?) a formulação do tal projeto esportivo nacional. “A gente não aguenta mais discutir. Fazemos três, quatro encontros, que geram documentos muito bons. E esses projetos morrem na paralisia do Congresso. Já teve três conferências organizadas com o objetivo de se formular uma política de Estado esportiva para o Brasil. A gente não aguenta mais debater.”

O repórter faz esforço para apresentar dados otimistas sobre a Olimpíada. Ela bloqueia todos, como se fizesse parte do paredão da seleção russa de vôlei. E do mais alto, o masculino.  “Agora temos pistas de atletismo pelo Brasil todo”, diz o repórter. “Ter uma pista revestida com material emborrachado e certificado pela Iaaf é para atletas de alto rendimento. Precisamos de pistas também para as pessoas que vivem no bairro. Com chão de terra, piso de carvão. Ter uma pista de atletismo tão cara para atender a amadores é como dar um tiro de bazuca para matar uma formiga.”

“Mas e as crianças? Meu filho, por exemplo, vai ter a oportunidade de ver, in loco, algumas provas dos Jogos Olímpicos”, apela a reportagem. “Seu filho é um privilegiado. Ele vai se encantar por algum esporte e vai querer praticá-lo no dia seguinte, mas não vai encontrar um lugar”, rebate.

Eu desisto. Ela não desanima: “Acho que esse projeto esportivo nacional é uma utopia. Mas faço parte da linha propositiva. Está na mão da sociedade lutar por isso. É uma utopia, é uma utopia que vale a pena perseguir”.

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