Vilma Batista, do Sindicato dos Policias Penais: “Nunca tinha sido discriminada como mulher e sindicalista como foi nessa gestão”

POR SINSP/RN, 22/09/2021

A presidenta do Sindicato dos Policiais Penais está em constante luta em pelo menos duas frentes: na batalha diária por melhorias para categoria, e na disputa por um sistema prisional de qualidade.

Vilma Batista é servidora do Estado desde 2002, ano em que tomou posse para se tornar agente penitenciário, antigo nome dado a função de policial penal. No sindicato participou da fundação, em 2004. Porém, mesmo com tanto tempo nessa batalha, ela diz que atualmente vive uma posição inédita e nada confortável.

Pela primeira vez ela se sentiu desrespeitada e discriminada por uma gestão do governo do Estado, após uma briga entre o secretário Pedro Florêncio Filho, da SEAP, e o sindicato que representa os trabalhadores da categoria se tornar pública. Ao longo da conversa com o SINSP, a presidenta do Sindppen-RN contou parte de sua história, detalhou lutas sindicais e também o porquê de se sentir desrespeitada pela atual gestão do governo. Confira abaixo:

SINSP: Inicialmente gostaria de saber há quanto tempo você está na luta sindical.

VILMA BATISTA: Nem sei…  É que estou desde a fundação do sindicato. Eu venho participando desde 2004. Eu era da diretoria e acho que foi em 2012, 2011 não me lembro, que fui para vice-presidência e então para presidência. Agora estou no terceiro mandato à frente do Sindppen.

SINSP: Nesse tempo você participou de muitas lutas, inclusive nacionais, não foi?

VILMA BATISTA: A nossa categoria é uma categoria hoje reconhecida constitucionalmente pelo artigo 144, da segurança pública, mas há muitos anos tentávamos essa constitucionalização. Isso porque a gente fazia parte de uma categoria que nem era da justiça, nem da segurança, no entanto trabalhávamos para ambos e a responsabilidade era de ambos. Então trabalhamos todos esses anos para existir realmente de direito, pois existíamos de fato, mas não de direito. Nossas maiores dificuldades eram que todas as categorias tinham direito. A gente praticamente não existia, éramos chamados de categoria de emenda. Tivemos essa luta a nível nacional para aprovar essa emenda na Constituição Federal, como também o nosso porte de arma, que foi anterior a isso. Também tem a privatização e a terceirização no sistema prisional, ainda hoje no Brasil, entre outras pautas do serviço público, já que faço parte também da Confederação Nacional dos Servidores Públicos e da Central Sindical dos Trabalhadores, que é a nova central.

SINSP: Ser mulher à frente do sindicato dos policiais penais traz uma dificuldade ainda maior ao cargo?

VILMA BATISTA: Confesso a você que nunca senti dificuldade em relação a gênero. A polícia penal, por ser uma categoria nova aqui no estado, não nova no Brasil, e também a gente fazer parte desde a primeira turma, de 2000, então entre as categorias da segurança pública é a que menos tem esse preconceito em relação as mulheres. Dificilmente temos algum caso, tanto é que desde que a gente está no sindicato, a categoria confia no nosso trabalho. Eu nunca tive nenhum problema por ser mulher, em relação a função e o trabalho. Lógico que o peso da responsabilidade é maior porque você além de ter seu trabalho, tem a jornada tripla: casa, filho…

SINSP: O que está acontecendo dentro da secretaria e o porquê dessa disputa pública entre você e o secretário?

VILMA BATISTA: Ao longo desses anos o sistema prisional sempre foi um sistema à parte, sistema abandonado, né? Então o sindicato travou essa luta estadual e nacional para poder mostrar as nossas autoridades competentes que não é preciso privatizar e sim investir no sistema prisional para a gente manter a ordem e o controle do sistema, combatendo o crime organizado. Então nós fizemos esse trabalho ao longo do tempo, não foi fácil. Elencamos cinco projetos para alcançar hoje a eficácia, a eficiência que nós temos atualmente. Hoje nós somos referência em nível nacional, mas foi um trabalho construído pela categoria, construído pelo sindicato.

A gente começou a perceber desde o ano passado a flexibilização do sistema prisional, em relação a segurança, e isso é um temor da categoria, é um temor do sindicato, porque flexibilização não é ressocialização. Ressocialização, inclusive, que nós apoiamos principalmente em relação ao trabalho, porque acreditamos que o que dignifica o homem é o trabalho. Então é importante sim a nossa população carcerária ter essa preparação, essa qualificação profissional. Não só pra sustentar a sua família, inclusive para ressarcir o próprio estado. No entanto, a secretaria vinha fazendo algumas flexibilizações que acabaram empoderando a população carcerária, e isto é um temor da categoria até porque flexibiliza a segurança.

Com isso começou o sindicato fazendo a defesa do sistema prisional e da categoria. E aí, pela primeira vez, diante de todos esses anos, o sindicato, e eu como pessoa, que nunca tínhamos sido atacados pessoalmente pelo gestor… Então o secretário quando vai para uma rede de televisão e personalizou a luta, atribuiu toda a nossa frente de atuação exclusiva a mim, como pessoa. Eu nunca tinha sido desrespeitada, discriminada como pessoa, com mulher e como sindicalista como fui nessa gestão. O secretário foi numa rede de televisão dizer que sindicalista era pessoa encostada e que por eu estar em disponibilidade sindical há muito tempo não trabalhava, não entendia do sistema prisional… Então ele me desqualificou, desqualificou os sindicatos… Como mulher também. Disse que no tempo que eu trabalhava o sistema prisional era cheio de prostituição, cheio de de bebidas… Foi a minha primeira e única situação constrangedora vivida no sistema prisional.

E é mais constrangedor quando o governo que vem de base sindical… A governadora simplesmente calou-se diante disso. Eu esperava uma postura diferente até porque as ofensas do secretário não foram só como pessoa, foram ao movimento sindical e a mim como mulher. Não fui só atacada pela gestão, como também a gestão buscou outros órgãos para fazer apoio a secretaria. Mas isso não abalou nosso trabalho, nem a minha honra, ao contrário, vai instigar ainda mais no combate ao crime. Sabemos que todas essas ações são orquestradas e intimidatórias e eu não vou recuar, não vou me calar pois sou forjada na luta e na coragem. Tenho um nome limpo, tenho uma reputação limpa e é com isso que vamos para cima.

O secretário chegou a comparar nosso sindicato a uma organização criminosa e não quer mais nos receber. Ele não goste de mim, mas tem que me respeitar como pessoa, como profissional e acima de tudo respeitar nossa história de luta, pois tudo que ele encontrou prontinho no sistema, foi fruto do nosso trabalho. Espero que o diálogo seja mantido entre o sindicato e o gestor da pasta.

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