Bolzan: Bolsonaro repete grave erro do governo da Filadélfia, que desdenhou da gripe espanhola, causando milhares de mortes

Por Vi o Mundo, 22/03/2020

A IGNORÂNCIA DA PANDEMIA É A PANDEMIA DA IGNORÂNCIA

por Luís Carlos Bolzan, especial para o Viomundo

O Sistema Único de Saúde  (SUS) é a maior conquista da Constituição Federal de 1988.

Generosa política pública de saúde universal, o SUS  sofre de desfinanciamento crônico, intensificado pela Emenda Constitucional 95, a EC 95 do teto de gastos, tão aplaudida pela grande mídia.

Apesar disso, é no SUS que os adeptos da seita neoliberal se agarram agora com fervor para salvar vidas, sempre relegadas a segundo plano em benefício da liberdade do capital especulativo.

O SUS não é uma seita nem uma divindade.

O SUS é um sistema universal de saúde, fundamentando em prática e conhecimento científicos, que deve ser blindado de todo e qualquer ajuste fiscal recessivo.

Neste momento, diante da pandemia COVID-19, os brasileiros poderão entender por que o SUS é vital.

A pandemia não é uma “fantasia” fruto de “histeria”.

Também não é uma “gripezinha” que possa ser desdenhada em ato falho presidencial praticamente assumindo sua contaminação, e em desrespeito aos já mais de 13 mil mortos em todo o planeta.

Pandemias são recorrentes na história mundial.

Porém, a pandemia COVID-19 tem potencial explosivo, que fatalmente será maximizado por condicionantes sociais, econômicos e políticos da saúde coletiva.

Explico.

O que já é um desastre em países como Itália e Espanha, por exemplo, tem potencial para ser uma bomba relógio sanitária em países como Estados Unidos e Brasil, seguidos ainda pelo continente africano.

Nos Estados Unidos, com seus seguros privados centrados no lucro e sem compromisso algum com a segurança sanitária coletiva, a situação é agravada dia após dia pela postura de desdém mantida até semana passada por Donald Trump, além da disseminação em profusão do novo coronavírus.

Somente na semana passada as autoridades estaduais e municipais dos Estados Unidos (não a autoridade federal) passaram a determinar medidas de isolamento social e paralisação de atividades com vistas a tentar conter a circulação do vírus.

Porém, enquanto escrevo esse texto, os Estados Unidos já passaram a ser o terceiro país com número de casos no mundo.

Lá, já chegam a 27 mil, demonstrando curva agressiva em seu gráfico de novos casos diários no encalço da Itália.

Diferentemente da Itália que tem sistema público de saúde, menor população e menor número de pessoas em estado de vulnerabilidade social pela miséria, por exemplo, os EUA terão que enfrentar a pandemia colocados diante da verdade factual que sua escolha ideológica sobre política de saúde é absolutamente insuficiente e ineficaz, deixando sua população desprotegida.

Ou seja, os Estados Unidos, com sua população de mais de 328 milhões de habitantes, têm propriedades inflamáveis diante da pandemia, podendo superar o número de casos da China.

Só que, por decisão do governo brasileiro, justamente os Estados Unidos foram excluídos das restrições de vôos para o Brasil.

Ou seja, o Brasil segue com fronteiras abertas para receber vôos originários dos Estados Unidos, numa decisão sem nenhuma sustentação científica. A única explicação para esse absurdo é postura de servilismo viralatista do governo Bolsonaro ao trumpismo.

O capachismo ideológico do governo brasileiro prioriza privilégios aos Estados Unidos em detrimento da população brasileira.

E aqui está um dos problemas a ser enfrentado pelo Brasil:  temos um presidente desqualificado, que sucessivamente demonstra não estar à altura da missão que se impõe a um Presidente da República nesse momento.

Jair Bolsonaro não é capacitado para liderar, provando isso em se auto-elogiar como “técnico” de uma equipe que estaria ganhando de “goleada”, e que mereceria por isso elogios.

Sequer somos uma equipe, visto as inúteis brigas e disputas contínuas dentro do governo federal e do presidente com governadores.

Pior ainda. Não goleamos nosso adversário.

Muito menos estamos ganhando seja lá o que for até o momento, principalmente pelo terrível prognóstico do ministro da Saúde de que o sistema de saúde entrará em colapso no final de abril.

O Bolsonaro, que não consegue dialogar com governadores e prefeitos, é o mesmo que desdenha da ciência e incita manifestações públicas que defendam seu governo. E, de forma igualmente irresponsável, deixa nas mãos de pastores e lideranças religiosas a decisão de manterem cultos  diante de pandemia do coronavírus, altamente contagioso.

Mais do que isso, Bolsonaro:

* afirma, sem qualquer fundamento que metade da população estaria imune ao novo coronavírus;

* admite em entrevista ao Ratinho, que apenas em fevereiro, quando surgiu o primeiro caso positivo do coronavírus no Brasil,  “acendeu a luz amarela no governo”;

* reconhece que o governo brasileiro perdeu quase dois meses desde que a China já demonstrava estar lidando com grave situação.

*em fevereiro deste ano, assinou a Lei Federal 13.979, que estabelece medidas de isolamento e quarentena, e já em março descumpriu a lei que ele próprio assinou, participando de manifestação no dia 15 de março;

*de forma irracional e inconsequente, insiste em negar ou minimizar a gravidade da situação, criando uma fantasia delirante. Agrava, dessa forma, o perigo a que submete a população brasileira sob imenso risco sanitário.

De forma mesquinha, o governo brasileiro demonstra — sem remorso algum! — maior preocupação com a economia, que já foi para o vinagre e terá crescimento negativo, desconsiderando que economia só pode crescer com segurança das pessoas em primeiro lugar.

A preocupação de Bolsonaro é indisfarçavelmente politiqueira diante de fragoroso fracasso de seu pífio governo, e menos, muito menos com a população.

Faz jogo de cena para a malta de seguidores altamente ideologizada em detrimento de sua responsabilidade sanitária e bem-estar de toda população do país.

Para lidar com essa situação, dada a aprovação pelo Legislativo de decreto de calamidade, permitindo desconsiderar limites de gastos, seriam necessárias medidas extremas para situação extrema, se permitindo perceber que a “normalidade” não existe mais.

A primeira medida seria aumentar a capacidade de rastreamento da circulação do vírus em nosso meio.

Isso somente pode ser feito com aumento da capacidade diagnóstica, o que é impossível com a postura adotada pelo governo federal em apenas testar pessoas em estado grave ou que tiveram contato com infectados ou estiveram em regiões onde o novo coronavírus está disseminado.

Sem diagnóstico preciso não é possível maior precisão prognóstica, restringindo muito as chances de sucesso das medidas adotadas.

Os 10 milhões de testes rápidos anunciados pelo Ministério da Saúde são necessários, mas insuficientes, visto que representam menos de 5% do total populacional do país. O Ministério da Saúde deve ampliar esse número já divulgado.

A baixa testagem mascara o número de casos pela subnotificação.

Outra medida necessária é a ampliação de repasse de recursos aos municípios para qualificar e aumentar raio de ação da atenção básica, não se restringindo à iniciativa de alongar horário de unidades de saúde, que é importante, mas intensificando busca ativa, com equipes volantes, no modelo de saúde da família.

Na esteira desse reforço assistencial, o Ministério da Saúde deveria investir volume significativo de recursos para, permitir aos municípios implantarem equipes do programa Melhor em Casa que acompanha internações domiciliares.

O programa deveria ser alterado quanto ao contingente populacional máximo a ser assistido por cada equipe.

Hoje  é de 50 mil pessoas por equipe. Deveria ser, no máximo, 10 mil pessoas por equipe e fazer intenso cuidado dos casos de pessoas infectadas com sintomatologia não grave em suas residências.

O Melhor em Casa deveria ser ampliado a todo território nacional, o que contribuiria muito para que a procura por serviços hospitalares fique restrita a casos graves, livrando leitos, além de possibilitar cuidados às pessoas infectadas que estarão em casa, reduzindo stress e insegurança dessas pessoas e suas famílias,  por si só, já psicologicamente fragilizadas pelo isolamento social.

É fundamental também a liberação de recursos para ampliação da aquisição de equipamentos destinados a leitos de UTI com respiradores, além da abertura de novos leitos clínicos, para além do já informado pelo Ministério da Saúde.

O Ministério da Saúde conta com dois grandes instrumentos:

* DATASUS, departamento que lida com informações relativas à saúde e  às tecnologias de informação aplicadas ao SUS.

*Ouvidoria Geral do SUS, a maior ouvidoria de política pública do mundo.

Ambos deveriam ser colocados em funcionamento focados na pandemia.

O DATASUS para desenvolver aplicativo que interligue gestores de saúde das três esferas de gestão, otimizando informações e ações, inclusive junto à população.

A Ouvidoria ativa, disseminando informações para a população com ligações direto para celulares. Basta para isso, requisitar números de celulares às operadoras.

Na linha de disseminação de informações, o governo federal que gastou milhões de reais para campanha publicitária a fim de aprovar reforma da previdência, até agora não fez o mesmo para difundir informações qualificadas para a população em todo território nacional.

Por fim, o governo federal já tarda em determinar isolamento social imediato e paralisação do país com finalidade de estancar circulação do vírus.

Não o fez, apenas recomendando isolamento por aderir à posição de privilegiar a economia à segurança sanitária das pessoas.

Isolamento social é um imperativo ético, não uma escolha, e deve ser determinada imediatamente.

Bolsonaro repete grave erro do governo da Filadélfia/Estados Unidos em 1918, que desdenhou dos avisos de especialistas sobre a gripe espanhola, resultando em mais de 16 mil mortes em seis meses.

Isolamento social e quarentena deveriam ser medidas drásticas de prevenção a serem adotadas antes da constatação de ampla circulação viral e da declaração de transmissão comunitária, exatamente para evitar sua massiva difusão.

Todavia, como prevenção em situação extrema como a pandemia repercute negativamente na economia, passa a ser palavra evitada por governantes fracos e covardes, sem compromisso com a população, tardando para adotar medida imperiosa para segurança sanitária coletiva.

Importante ter e mente que, mesmo com a necessidade de ação conjunta e articulada entre Ministério da Saúde, estados, Distrito Federal e municípios,  a Lei Federal 8080/90 estabelece o comando único em cada esfera de gestão do SUS, ou seja, secretarias estaduais, do distrito federal e municipais de saúde estão amparadas pela legislação federal para tomarem iniciativas sanitárias que forem necessárias, no âmbito de seus territórios, para enfrentar a pandemia

Essas medidas devem se somar à revogação da EC 95.

A sociopatia diversionista genocida não pode ser tolerada, pois eleva à centésima potência o risco sanitário de todo povo brasileiro.

O bolsonarismo sempre foi uma ameaça para a organização social brasileira, apesar de negado por aqueles que igualavam professor humanista a defensor de ditadura, de ditadores, e que tem por herói um torturador.

Embora imponha consequências muito mais duras aos pobres, o novo coronavírus desconhece classe social, nacionalidade, credo, raça, gênero e ideologias. E isso faz com que todos se agarrem esperançosamente ao desdenhado SUS.

Talvez agora aqueles que diziam ser tudo a mesma coisa percebam a estupidez de suas posições ideologizadas.

Bolsonaro tem que ser responsabilizado por sua defesa irresponsável da economia em detrimento das pessoas, visto que segue negando absoluta gravidade da situação no momento em que Brasil já superou a marca dos 1.100 casos, com evidente subnotificação, e com 18 mortes.

Ainda há tempo de tomar medidas que contribuam para fortalecer segurança sanitária da população e impedir que a sociopatia continue prejudicando esforços contra o novo coronavírus.

Do contrário, depois só restará lamentar e contar números desastrosos.

*Luís Carlos Bolzan é psicólogo, especialista em psicologia da saúde, mestre em gestão pública de saúde. Foi diretor do Departamento de Ouvidoria Geral do SUS do Ministério da Saúde (MS) e do Departamento Nacional de auditoria do SUS DENASUS/MS

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