Enem mostra abismo entre os ensinos privado e público. Especialistas apontam causas e soluções para

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) divulgou, na semana passada, as médias obtidas pelos participantes do Enem 2009 (Exame Nacional do Ensino Médio). Em âmbito nacional, das 20 melhores escolas, 18 são privadas e duas públicas, e dentre as 20 piores todas são públicas. A divulgação da lista das melhores escolas de Ensino Médio do país, com apenas duas escolas públicas entre as 20 que estão no topo, representa o abismo que existe no Brasil entre a educação do setor privado e aquela ministrada pelo poder público em suas diferentes esferas – federal, estadual e municipal.
   
Para Cesar Callegari, membro da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), o abismo apontado não revela com propriedade a diferença de qualidade entre escola pública e a escola privada. “A diferença maior está nas características socio-econômico-culturais das populações a que essas escolas atendem. A escola particular é seletiva e exclusivista em relação à clientela que atende. Se esses garotos de classe média estivessem estudando em escolas públicas, elas, certamente, teriam um desempenho muito melhor. Claro que não é possível desconsiderar os problemas estruturais que afligem as escolas públicas”.
   
A presidente do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), Eleika Bezerra, disse que, antes, é importante atentarmos para o fato do Enem ser um exame voluntário, mas que, de qualquer forma, levanta questões e permite algumas análises. “A situação da educação básica pública brasileira continua muito grave. E o Ensino Médio é uma verdadeira ‘ bomba’ que está a explodir! Sem esgotar os variados determinantes que caracterizam o referido ‘abismo’, aponto o principal deles: apatia da população ao aceitar escolas que, na sua maioria, ‘funcionam’ de forma muito precária. Considero o fator família que, desestruturada, contribui para o agravamento do quadro. Destaco o profissional professor – quando existe – responsável maior pelo processo educacional, que encontra-se com algumas precariedades na sua formação inicial e continuada e desmotivado a partir do salário. A ausência da família, que vive uma profunda crise, agrava o quadro”.
   
É importante atentar, segundo Eleika, para o fato de que os poucos bons resultados da rede pública se concentram nos institutos federais de ensino profissionalizante, onde os professores têm salários, em média, quatro vezes maior do que os da rede estadual. “Além de uma estrutura bem diferenciada que permite boas condições de trabalho. É oportuno se perguntar: quanto custa o aluno do Ensino Médio de uma escola privada, de uma escola pública estadual e de uma escola pública federal? Fundamental é se esclarecer tais custos. Como vem sendo feita a gestão da escola pública estadual? Ela tem recursos financeiros ao seu dispor? Bem, entre poucas afirmativas e alguns questionamentos, finalmente, pode-se afirmar que a educação não é, na prática, prioridade nem para a maioria da população, nem para os governantes. Inexiste pressão para que ela se efetive dignamente. A rede privada tem uma clientela – na sua grande maioria – atenta e com nível de exigência que termina por alcançar melhores resultados. E os que freqüentam a escola pública ‘dormem em berço esplêndido’! Será que não acreditam que poderiam ser ouvidos?”, questiona a presidente do IDE.
   
Próxima geração
Um dado no resultado do Enem preocupa os especialistas: 80% das matrículas na Educação Básica são feitas em escolas públicas. Se persistir o resultado do exame nos próximos anos, temos como mensurar o impacto disso numa geração daqui a 15 anos, por exemplo? “Lamentável que este percentual seja tão pouco conhecido. Afinal, estamos tratando da educação a qual deve ter acesso – e sucesso – todo e qualquer cidadão brasileiro para que se efetive o ‘direito de aprender’. É a básica! Lastimável que os governantes têm desprezado o Ensino Médio e, irresponsavelmente, expandido o Ensino Superior, que é da competência da União!”, lamenta Eleika.
    
De acordo com a presidente do IDE, é indispensável mudar o rumo. “Seremos, ou somos, uma população de ‘doutores’ e de analfabetos funcionais? Como vai sobreviver uma nação, em plena globalização, onde somente cerca de 30% de sua população consegue ler e interpretar devidamente um texto? Não é difícil imaginarmos as imensas dificuldades que o Brasil terá no futuro se outra política educacional não for traçada e executada daqui para frente. O que está aí não convence: antes pelo contrário! Os empresários declaram, de quando em vez, que falta mão de obra qualificada. Ora, como qualificar alguém para o trabalho, sem uma educação básica sólida?”, questiona.
Currículo
Um problema histórico do Ensino Médio, desde a época em que se chamava segundo grau, é o de apresentar uma grade curricular desvinculada da realidade, e esse fato pode ter atrapalhado as notas do Enem. “Um dos grandes desafios na área do ensino é assegurar a relação teoria X prática, e no Ensino Médio não é diferente. A inexistência de tal relação impede que o aluno encontre significado no que é trabalhado no currículo, o que leva um grande número de alunos a não encontrar motivação para permanecer na escola. Aliás, pesquisas recentes apontam que a ‘desmotivação’ é a principal causa da desistência ou evasão do aluno da escola média. Eis aí um grande desafio a se enfrentar: fazer com que a escola seja interessante, motivadora, assegurando que o aluno permaneça para aprender! É preciso registrar que, antes de se pensar em uma grade curricular vinculada à realidade, é indispensável que os dias letivos aconteçam regularmente. Sabe-se que há inúmeras irregularidades no cumprimento do mínimo exigido para o calendário escolar! Diante de tal contexto, os resultados do Enem não poderiam ser diferentes”, enfatiza Eleika.
    
De acordo com César Callegari, no mundo todo, o Ensino Médio está em crise e vem sendo repensado. “No Brasil, ele exige providências urgentes. Aqui, são necessários fortes investimentos em infraestrutura e material didático. Mas nosso maior problema está na falta de professores e as deficiências em sua formação. Faltam 170 mil professores de química, física e matemática para as escolas médias. E mais: apenas 25% dos professores que lecionam física, por exemplo, possuem habilitação específica para lecionar essa matéria. Para o magistério da educação básica em geral e para o ensino médio, em especial, precisamos atrair os melhores entre os melhores. Para isso, são necessários salários, carreira e condições de trabalho atraentes. Um novo currículo e uma nova forma de organização do trabalho escolar também são necessários. O estudante do ensino médio deve ser preparado para ser um bom perguntador, ser um ótimo pesquisador, um analista preparado para compreender o mar de informações que hoje é disponibilizado pelos modernos meios de comunicação. Além disso, não é possível preparar esses garotos para os desafios contemporâneos com uma estrutura do século XIX. escola de Ensino Médio deve ser em tempo integral, e os que precisam estudar à noite, devem poder fazer o seu curso em um número maior de anos. As atuais 3 horas por dia por 3 anos, é muito pouco para dar conta da tarefa”, acredita Callegari.
   
Educação repensada
Os dados do Enem são um alerta para que o sistema educacional seja repensado, mudando planejamentos, práticas pedagógicas e mais verbas, segundo Eleika. “Definir uma política educacional que assegure a continuidade; assegurar data para que a União, os Estados e os Municípios assumam, de fato e de direito, as suas competências quanto à Educação Infantil, ao Ensino Fundamental, ao Ensino Médio e ao Ensino Superior. A população precisa ter clareza de tais competências. A unidade escolar carece de autonomia administrativa, pedagógica e financeira. Profunda reformulação na política de pessoal, inclusive, redefinição do gestor escolar. Realização de estudos que esclareçam, objetivamente, o custo aluno nos diversos níveis, esclarecendo, inclusive, o custo benefício. Mais recursos financeiros – descentralizando-os e controlando-os”.
    
Educação inovadora
Para Callegari, as inovações que possam ser incorporadas ao processo de aprendizado, como recursos tecnológicos e científicos, além de conteúdos mais voltados à realidade dos alunos, podem ajudar na qualidade da Educação Básica. “Inovações trazidas pelas novas tecnologias devem ser instrumento do trabalho de estudantes e professores. Mas algumas antigas tecnologias, como o livro e os laboratórios, são indispensáveis. Além disso, penso que o mais importante é que os estudantes sejam preparados para pensar, desenvolver o espírito crítico, fazer relações entre conteúdos curriculares e o mundo em que vivem. Daí a importância da filosofia, da sociologia, da história e da arte na base curricular do ensino médio”.
    
“Já me referi à relação teoria x prática, que permite tornar os conteúdos significativos para os alunos. E tudo o que a ciência e a tecnologia disponibilizam tem de ser considerado e bem usado, inclusive começando por contribuir para que todos aprendam a ler, escrever, contar, pensar… conscientemente. Isso é básico para se alcançar a qualidade da educação e ter a possibilidade de uma vida digna! Uma idéia: os dirigentes e servidores públicos deveriam matricular os seus filhos nas escolas públicas. Aí os resultados na Educação Básica – inclusive do Enem – seriam bem melhores!”, conclui Eleika Bezerra.
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