Moro rachou o campo fascista: agora é tudo ou nada, por Wilton Cardoso

POR GGN, 26/04/2020

A saída de Moro foi urdida por este junto com a grande mídia (Globo à frente) e provavelmente com parte do grande capital e da política tradicional Por Wilton Moreira

Moro rachou o campo fascista: agora é tudo ou nada

Por Wilton Cardoso

Do Blog do autor

Não há lugar para dois líderes fascistas num mesmo país, pois o fascismo, embora seja uma massa humana inconsistente e contraditória, deve ser um bloco que delira em uníssono.

A saída de Moro foi urdida por este junto com a grande mídia (Globo à frente) e provavelmente com parte do grande capital e da política tradicional. Sua entrevista acusatória e a apresentação de material para o impeachment no Jornal Nacional mostra que foi jogo combinado. Ou seja, há uma composição, não se sabe se momentânea ou de longo prazo, do fascismo morista com a elite de direita, política, econômica e midiática.

O desembarque de Moro acontece num momento em que os delírios bolsonarianos começam a se chocar com a dura realidade da pandemia e da crise econômica. Num momento em que o fascismo de classe média, mais afinado com Moro, bate panelas contra o Bozo e o enfraquece.

E como não pode haver um fascismo rachado, agora é tudo ou nada para Bolsonaro: ele será “impichado” pela direita com o apoio barulhento da ala fascista que está com Moro. Este planeja uma prolongada exposição midiática como herói no palanque do impeachment. Tudo em meio ao agravamento da epidemia, numa trágica ironia: o espetáculo da briga entre dois fascistas se daria num cenário nacional de doença e morte.

Bolsonaro já havia percebido o jogo e tratou de recrutar a parte mais barra pesada do centrão, ou seja, ele também tenta dividir o adversário, negociando com alguns líderes do baixo clero para enfraquecer a direita tradicional. O problema é que Roberto Jeferson e Cia são mercenários não confiáveis, ávidos por cargos e dinheiro, mas prontos para desertar de batalhas perdidas.

O arsenal da extrema-direita bolsonarista

Bolsonaro, apesar de enfraquecido, tem alguns trunfos e não devemos considerá-lo derrotado desde já. Talvez ainda mantenha boa parte do apoio dos evangélicos, cujos pastores e fiéis não morrem de amores pelo estilo laico de Moro nem de sua proximidade com a Globo, a emissora do Demônio. Em relação à mídia, conta com Record e SBT (quase metade da audiência televisiva) e uma experiente e bem sucedida milícia virtual atuando agressivamente em todas as redes sociais.

Além disso, Bolsonaro pode se aproveitar do desgaste de Paulo Guedes e demiti-lo, substituindo-o por alguém competente, que implemente uma política econômica de viés keynesiano, com o apoio dos generais.Leia também:  Não vamos falar do traidor, mas sim do traído, por Estevão Mangueira

Na esfera social, o Governo agilizaria o pagamento da renda básica e se tiver criatividade tomaria a iniciativa de prolongá-la até o fim do ano, passando seu valor para um salário mínimo e  aumentando o número de beneficiados, capitalizando para Bolsonaro um amplo apoio dos pobres, que até agora ele não teve. E tudo dentro da lei, pois a PEC do orçamento de guerra já está aprovada.

Na esfera econômica, um Governo Bolsonaro militar-keynesiano iniciaria um amplo programa de obras públicas, recuperando emprego e renda no pós-pandemia. A conjuntura atual é propícia para gastos amplos e aumento de endividamento, pois a ideologia austericida neoliberal a la Guedes, Meirelles e economistas de mercado está desmoralizada a nível mundial.

Mas para uma guinada keynesiana dessa envergadura, Bolsonaro e militares precisam de duas coisas. Primeiro, teriam que se manter a todo custo no poder nesse primeiro momento de embate para derrubá-lo: é o que ele tenta, ao cooptar parte do centrão, rachando a direita no Congresso.

Segundo, e o mais difícil para sua personalidade tosca e paranoica, Bolsonaro teria que nomear e bancar (blindar contra os ataques de suas milícias virtuais) um segundo escalão competente, que sabe pensar a complexidade do país para áreas fundamentais, como Ministério da Economia, BC, Infraestrutura, bancos públicos, Saúde, Educação, Ciência e Tecnologia, Itamarati etc.

Aí o Governo Bolsonaro se tornaria uma águia fascista completa, com sua “asa” política delirante e irracional sustentada pelas Damares, Reginas Duartes, pastores pentecostais e gabinetes do ódio da vida; e sua outra “asa” econômica de cunho keynesiano, com forte política de assistência social e intervenção estatal na economia – que, aliás sempre foi a posição ideológica de Bolsonaro, desde seus tempos de deputado nacionalista tresloucado.

O problema mais urgente para Bolsonaro é a moral de sua tropa, formada por apoiadores desiludidos e mercenários do centrão, para segurar o rojão do momento, em que seu Governo vai estar sob fogo cerrado da grande mídia, do judiciário, das polícias federal e do Rio e de boa parte do Congresso.

As armas da direita e de Sérgio Moro

Do outro lado, a elite de direita, em composição com o fascismo morista, está animadíssima e a ponto de bala para chutar Bolsonaro da presidência. Vão gastar toda munição que tiverem para desgastá-lo ao máximo, mas darão o golpe final apenas se o desgaste funcionar e a popularidade de Bolsonaro desabar.Leia também:  ABJD exige apuração de crimes de Bolsonaro e Moro

Se não conseguirem derrubá-lo vão tentar sangrá-lo até o fim do governo, para que ele não tenha chance de reeleição. Um jogo arriscado, pois Bolsonaro pode sair mais forte e popular no final ou, pior, a esquerda pode ganhar tempo para se rearticular em torno de um nome competitivo e o povo pode esquecer os heróis da direita, como Moro e Mandeta.

Se conseguirem derrubar Bolsonaro agora, o problema é o depois, pois Moro vai cobrar a fatura e querer ser o candidato da direita e extrema direita unificadas. Mas será que Moro consegue ser um líder fascista? Ele não tem perfil de mobilizar as massas e mantê-las em estado de excitação e delírio permanentes, “talento” que Bolsonaro e filhos têm de sobra.

Talvez Moro tente se deslocar da extrema direita para a centro-direita. Mas aí ele vai compor com o sistema político e perderá sua identidade antipolítica e boa parte da militância fascista, a mais ativista e barulhenta. Sem falar que é um neófito na política tradicional e tem nela muitos desafetos, por conta de sua atuação como caça-políticos implacável na Lava Jato.

E o comportamento atual de Moro só reforça as desconfianças que os políticos já têm sobre sua conduta de homem público. O Congresso não é um convento de freiras carmelitas, mas se há algo que os políticos prezam é a lealdade, inclusive entre adversários. Quem vai querer se aliar, negociar ou mesmo conversar qualquer coisa com Moro sabendo que ele não tem nenhum pudor em armar e gravar conversas, tirá-las do contexto e passá-las para a mídia (o famoso “jogar merda no ventilador”) para serem usadas contra seu interlocutor?

Outra questão é se a elite de direita quer Moro presidente ou apenas seus serviços sujos em troca de um prêmio de consolação, como a vice-presidência, por exemplo. Desconfio que Moro, um típico jeca provinciano deslumbrado com a fama, ainda é visto pela elite apenas como um instrumento para que ela chegue ao poder com um nome mais identificado com a direita liberal. A única maneira do ex-ministro escapar dessa instrumentalização é radicalizar seu fascismo antipolítica, como Bolsonaro fez.

E não nos enganemos, Moro e os lavajatistas podem até querer fazer movimentos táticos rumo o centro e compor com a política tradicional, mas sua essência política é fascista. São movidos pelo desejo de destruição pela destruição, que eles justificam (inclusive para si mesmos, num delírio auto-indulgente) como combate à corrupção. Basta observar o que como a Lava Jato, em sua sanha purificadora, quebrou as grandes empreiteiras, pertencentes aos grupos da elite nacional mais bem sucedidos, que tinham poder, dinheiro e prestígio. Se Moro e o lavajatismo chegarem ao governo pelas urnas, o caminho para o abismo fascista é uma certeza, da mesma forma como o é com Bolsonaro.Leia também:  Moro apresenta provas contra Bolsonaro à Globo

O futuro incerto e os perigos do abismo fascista

Há outras variáveis em aberto em nossa triste cena nacional de crise sanitária, econômica e política. A esquerda está fraca e será mera coadjuvante no jogo atual da luta entre a extrema direita bolsonarista e a direita tradicional, reforçada, por agora, com o fascismo morista.

Será que a esquerda irá recobrar suas forças até 2022, se houver 2022? E com quem os militares vão se compor? Com a elite de direita, com Bolsonaro ou continuarão divididos? Se Bolsonaro cair e Mourão assumir, a caserna vai querer protagonismo a longo prazo ou vai se contentar com o fardo de um governo de administração de crise até 2022 para entregá-lo a civis? Se Bolsonaro conseguir se segurar no poder, chegará em 2022 sangrando ou mais forte? O que restará do país depois do biênio 2020-2021, período em que se sucederão três crises gravíssimas, epidêmica, econômica e política? São questões para as quais ninguém tem respostas.

Em meio a tanta incerteza, uma coisa é certa: a direita liberal novamente brinca com fogo, tentando compor com os fascistas (primeiro com Bolsonaro e agora com Moro) e controlá-los, a eles e suas hordas delirantes, correndo um risco enorme de ser engolida por seu desejo irracional de destruir a tudo e a todos.

Preferem este risco do que disputar o poder com o campo progressista, os “comunistas”. É sempre assim, desde a Europa da década de 1930. E não aprendem nunca com a história.

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