Cresce número de mulheres autuadas no trânsito

‘Ano difícil para a Lei Seca”. Assim foi definido 2015 para o subcoordenador da Operação Lei Seca no Rio Grande do Norte, capitão Isaac Oliveira. Desde que a Operação foi iniciada, em fevereiro de 2014, a iniciativa divide opiniões: há os que rasguem elogios e os que reverberem críticas. A mudança de paradigma é apontado pelo Capitão Isaac como um dos saldos positivos da operação. “Com o passar do tempo, as pessoas começaram a nos observar com um olhar mais profissional. A maioria não oferece propina pois sabe que trabalhamos de forma diferente”, disse ele. 

Os números das blitze da Lei Seca no Rio Grande do Norte foram menores em 2015. Segundo a coordenadoria da Lei Seca, apesar de não ter os números definidos do balanço anual, o número de apreensões de CNHs e o número de prisões teve redução de 30% este ano, quando comparado a 2014.  A motivação para a queda foi diminuição do efetivo policial –  a média de 20 PMs em 2014 passou para 9 em 2015. De acordo com o  subcomandante da Lei Seca, por causa do baixo efetivo, o número de operações diminuíram em todo o Estado.

Uma das mudanças de comportamento que mais chamou atenção do subcoordenador da Lei Seca, foi o aumento no número de mulheres autuadas. Dados do Detran, mostram que em 2014, das 2.388 pessoas que estavam dirigindo sob influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa, um percentual de 18% eram mulheres, em 2015, de janeiro a junho, das 65 pessoas que foram autuadas, 29,27% eram mulheres.

As regras da Lei Seca consideram ato criminal quando o motorista é flagrado dirigindo com índice de álcool no sangue superior ao permitido pelo Código Brasileiro de Trânsito: 0,34 miligrama de álcool por litro de ar expelido ou 6 decigramas por litro de sangue. Nesse caso, a pena é de detenção de 6 meses a 3 anos, multa e suspensão temporária da carteira de motorista ou proibição permanente de obter a habilitação.

Condutores autuados por esse tipo de infração pagam R$ 1.915,40 de multa,  perdem 7 pontos na carteira e têm a CNH apreendida. O valor é dobrado caso o motorista tenha cometido a mesma infração nos 12 meses anteriores. Caso o bafômetro registre um índice igual ou superior a 0,05 miligrama de álcool por litro de ar, mas abaixo do 0,34 permitido pelo Código de Trânsito, o condutor é punido apenas com multa.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, capitão Isaac Oliveira faz um balanço da operação da Lei Seca durante o ano, comemora a ampliação da estrutura da operação no RN e fala sobre a mudança de perfil dos condutores potiguares autuados na Operação Lei Seca. “Ainda temos que trabalhar muito para mudar o comportamento; para fazer com que as pessoas respeitem as leis de trânsito. Algumas têm mudado, mas o número é pequeno”, disse.

Qual tem sido o efeito prático das Operações da Lei Seca?
Percebemos mudança no paradigma social das pessoas, que estão adquirindo a cultura de escolher o motorista da rodada, eles estão tendo um cuidado maior. Apesar das autuações ainda serem grandes, percebemos que os motoristas não estão confortáveis em beber e dirigir; receosas por causa da  fiscalização que a gente faz. A persistência sempre há, porque o ser humano é teimoso. Mas a gente percebe que as coisas estão melhorando, as pessoas estão mais conscientes, evitando beber e dirigir.

O grande número de pessoas que continuam bebendo e dirigindo se deve apenas à resistência por parte do cidadão ou há necessidade dessa fiscalização ter maior alcance?
É uma questão cultural. Pois notamos muitos casos de reincidência, não é o fato de fazer fiscalização que vai impedir as pessoas de beberem. Muitas se conscientizam, mas grande parte pensa que não vai ser pega novamente. A persistência vem da cultura do brasileiro  de beber e dirigir, não é de uma hora para outra que vamos mudar isso, é um trabalho que deve ser feito a longo prazo.

Como vocês pretendem mudar essa cultura?
Com a educação. Fiscalizar não adianta se não tivermos campanhas educativas, principalmente nas escolas, onde vamos pegar pré-adolescentes que em poucos anos vão começar a dirigir, pois depois de adulto, mudar a mentalidade é mais difícil.

Qual seria hoje a estrutura necessária – ideal – para que esse trabalho fosse feito com maior eficácia?
Ideal é uma palavra muito forte, pois sempre vamos querer produzir mais. Mas acredito com o incremento no efetivo e viaturas, estamos de bom a excelente de material humano e físico para as operações.

Este ano vocês se queixaram bastante da falta de estrutura, e mesmo perda do pouco que existia. Qual o prejuízo que essa deficiência trouxe à realização do trabalho?
Durante algum tempo, montamos as barreiras nas vias principais, com maior fluxo de veículos. Depois, decidimos fazer as blitze em vias alternativas, de menor movimento, mas com a probabilidade de flagrar mais condutores alcoolizados, proporcionalmente. Por isso, a quantidade de abordagens diminuiu significativamente.  Isso também se deve a diminuição do efetivo.  Éramos nove policiais até o incremento do novo efetivo, onde entraram mais 16. Fazer operações bem feitas com nove PMs, onde a gente apreende cerca de 50 carteiras de habilitação em uma única noite é um fardo muito grande. Ficamos sobrecarregados e tivemos que diminuir obrigatoriamente o número de operações.

Em 2014, cerca de 20 policiais participavam da Lei Seca, em 2015 o número foi reduzido pela metade. O que ocasionou essa diminuição?
Muitos pediram para sair, uns por problemas pessoais e outros porque não aguentaram o nosso sistema de trabalho, se sentiam sobrecarregados. A equipe do Detran que nos dava apoio deixou de ir por uma questão de gratificação.

No interior, quais seriam hoje as áreas ou municípios prioritários para haver essa fiscalização?
São sempre os grandes polos: Mossoró, Caicó e Pau dos Ferros. Nas cidades onde tem um eventos como carnavais fora de época. Quando acabar a Operação Verão, vamos direcionar a fiscalização para os interiores principalmente,  para pegar a demanda de motocicletas com documentos atrasados, sem documentos.

Desde o início da operação, vocês notaram a mudança de perfil dos condutores?
Por incrível que pareça, estamos notando um  aumento no número de mulheres flagradas dirigindo sob o efeito de álcool, antigamente eram os homens. Percebemos que quando o homem bebe e vê uma blitze, ele passa a direção para a mulher, que bebeu, porém menos.

Ainda existe pessoas que tentam se aproveitar?
É muito difícil perceber isso hoje em dia, pelo contrário, se são autoridades, elas fazem o possível para não serem reconhecidas. Até porque, se essas pessoas tentarem dar carteirada, isso não vai ser aceito e possivelmente isso pode ter alguma exposição na mídia. Recentemente, tivemos o caso de um filho de um coronel, que usou da situação do pai,que não compactuou com a ação do filho. Antigamente, pelo menos 50% dos nossos problemas se deviam as autoridades, que queriam ter preferência na fila ou não fazer o teste, oferecer alguma vantagem. Hoje em dia essas práticas quase não existem.

Mesmo diante das dificuldades para fazer a Operação Lei Seca, tanto estrutural, quanto desgaste emocional, qual a sua motivação para permanecer desde o início até hoje?
É uma questão pessoal, cada um tem a sua motivação. A maioria permanece pois acredita que se  pode fazer um trabalho bem feito, fazer a lei ser cumprida No meu caso e no de Styvenson (coordenador da Lei Seca no RN), é mudar a mente das pessoas, transmitir uma imagem diferente,  tanto da polícia quanto do servidor público. 

FONTE: TN, 03/01/2016
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