Economia e Desenvolvimento

LEIS DA TROPICALIZAÇÃO ANTROFÁGICA MISCIGENAÇÃO
Republico matéria do site do Blog do Zé, 12/07/2010

Fernando Nogueira da Costa

Um físico, um químico e um economista estão perdidos em ilha deserta, sem nada para comer, somente com uma lata de sopa enlatada. Entretanto, era preciso abrí-la. O físico disse: – “Vamos usar a mecânica e bater na lata com alguma pedra”. O químico disse: – “Vamos utilizar a química: fazer uma fogueira e aquecer a lata”. O economista complementou: – “Assumindo a hipótese de que nós temos abridor de lata”…

A piada corporativa ironiza o hábito de modelos econométricos assumirem hipótese irrealista. Talvez a mais comum seja a “ceteris paribus”, isto é, “tudo mais constante”. O modelador supõe que são apenas variáveis as que ele está focalizando ao buscar eventual correlação ou até mesmo relação de causalidade entre elas. Sua teoria é construída a partir de regularidades. Aprendizagem é repetição. Assumindo a hipótese de que não haverá nenhuma mudança, tudo ficará tão regular como no passado e se poderá, facilmente, prever o futuro!

Assim, os modelos se tornam estáticos e automáticos… ou mecânicos como a gangorra: se uma variável está subindo, a outra tem de estar descendo. Torna-se compreensível até para cérebros com “2 neurônio”, que raramente se comunicam entre si, o entendimento do pensamento binário: 0 ou 1. Por exemplo, está se assumindo a hipótese, no debate atual sobre a política monetária do Banco Central do Brasil, de que “a taxa de juros de curto prazo é elevada porque a taxa de juros de longo prazo é baixa”!

O aumento do crédito direcionado a setores prioritários por parte do BNDES (infra-estrutura), da Caixa (habitacional) e do Banco do Brasil (agrícola), segundo essa hipótese, obrigaria o Banco Central a fixar a taxa básica de juros (Selic) em nível mais alto. Como parte significativa dos empréstimos totais – 33% considerando só o crédito direcionado e mais de 40% somando ele com o crédito consignado – não seria afetada pela elevação da Selic, o Comitê de Política Monetária (Copom) calibraria os juros básicos em patamar ainda mais alto para compensar essa inoperância com elevação maior dos custos de créditos com recursos livres e, supostamente, combater a inflação.

Essa situação aumentaria o custo do ajustamento para a sociedade. “Uma maneira de dizer isso seria que diminui a eficiência da política monetária. Eu prefiro dizer que é plausível pensar que possa demandar uma Selic um pouco maior”, disse o presidente do Banco Central do Brasil em entrevista exclusiva ao Valor (05/07/10). No fundo, ele quer “tudo mais constante”, quando eleva o juro para alcançar a meta da taxa de inflação.

Em outras palavras, o meio “apagão” da “força” da política monetária seria porque sua “linha de transmissão” para a demanda agregada estaria parcialmente cortada, devido ao “jeitinho brasileiro” de fazer seu contraponto. Reservas internacionais elevadas (US$ 253 bilhões), expansão real da massa salarial (30,4% entre dez/2002 e abr/2010), crédito farto (45,3% do PIB) e com ampla fatia de empréstimos (mais de 40%) a custos inferiores aos de mercado, projetos sociais (mais de 11 milhões de Bolsas-Família) e a política de reajustes reais do salário mínimo (67,2% no governo Lula), com seu impacto sobre os benefícios previdenciários, ajudam a explicar o crescimento do PIB. Alguns economistas ortodoxos se arrepiam com a contraposição à política monetária e os custos fiscais embutidos nesse “jeitinho brasileiro”.

Ao longo de sua reprodução social, incansavelmente, o Brasil põe e repõe “idéias de fora do lugar”, sempre em sentido impróprio à ortodoxia. Chamamos essa adequação de políticas e instituições ao ambiente nacional de Tropicalização Antropofágica Miscigenada.

O ceteris paribus de modelos dos ortodoxos não lhes permite enxergar o dinamismo do crédito dirigido a investimentos. Ele altera a oferta agregada, ou seja, eleva a capacidade produtiva da economia. Os ortodoxos deveriam rever seus conceitos e refazer cálculos, se mantém o produto potencial inalterado. A menor taxa de juros de longo prazo no passado permite adotar no presente menor taxa de juros para controlar a demanda agregada em curto prazo. Esta atinge mais o custo do crédito ao consumo, aquela estimula investimentos.

A propósito do comportamento dos bancos públicos no contexto da política monetária, podemos relembrar a primeira das nossas Leis da Tropicalização Antropofágica Miscigenada: “independentemente dos homens e de suas intenções, sempre que o Banco Central se entrega à austeridade financeira, os Bancos Federais escancaram os cofres, com a inevitabilidade quase de uma lei natural”. Em outras palavras, sempre que o presidente do Banco Central do Brasil é monetarista, os presidentes dos Bancos Públicos são desenvolvimentistas. Isso teria ocorrido de maneira infalível em nossa história econômica.

Mas é importante não interpretar essa lei no sentido negativo, ou seja, de que os bancos públicos inviabilizam a política monetária. Ao contrário, isso demonstra duas coisas: primeiro que a dosagem das operações deles é instrumento básico de política monetária e, segundo, que o direcionamento setorial do crédito dá-lhe flexibilidade que, no final das contas, é melhor para o país. O crédito direcionado funciona como “amortecedor” de recessão provocada pela ânsia de controle monetário geral por parte da autoridade monetária em sua paranóia antiinflacionária.

Vale sublinhar: seria absurdo imaginar-se que os bancos públicos pudessem ter orientação divergente do Governo, sendo dele peças integrantes. Podemos então formular a segunda Lei da Tropicalização Antropofágica Miscigenada: “o comportamento dos bancos públicos é, por definição, o desejado pelo Governo”.

Fernando Nogueira da Costa é professor Associado do IE-UNICAMP. Foi Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal de 2003 a 2007. Blog: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail:

fercos@uol.com.brEste endere�o de e-mail est� protegido contra spam bots, pelo que o Javascript ter� de estar activado para poder visualizar o endere�o de email

error: Conteúdo protegido para cópia.
Menu e Busca