Economia e Desenvolvimento

CRISE DO DESENVOLVIMENTO
REpublico matéria do blog do Zé, 03/05/2010

Fernando Nogueira da Costa

A idéia, aparentemente paradoxal, de “crise do desenvolvimento” vem da psicanálise. Propõe que os períodos de desenvolvimento normal não se interrompem com a infância, mas continuam durante os anos da idade adulta.

Segundo esse pensamento, existe série de etapas ou períodos, cada qual apresentando oportunidade para novo crescimento. Ocorreria “crise do desenvolvimento” quando a pessoa tem de enfrentar nova tarefa na vida ou nova série de opções. Assim, ela chegou a ponto crucial ou a momento decisivo. Importante: “ponto decisivo para melhor ou pior”. Quando o homem chega a este ponto crítico pode conseguir vitória ou ser derrotado.

Os pesquisadores do comportamento individual começaram a reconhecer que o período da meia-idade é época extraordinariamente importante de mudança, marcada pela confusão mental e introspecção. É época em que maioria dos homens é acometida de dúvidas fundamentais sobre o que quer de fato viver. São angústias semelhantes às que experimentam os adolescentes. Neste caso, trata-se da passagem da idade infantil para a adulta; no outro caso, do período da vida que marca a passagem da idade adulta para a meia-idade. Em ambos, constitui período de transição.

A perda de ilusões é desalentadora e o colapso da velha estrutura de vida dói. Mas as dolorosas dificuldades são os sinais de crescimento: seu velho mundo acha-se abalado porque ele cresceu demais.

Podemos tomar essas idéias para repensar, analogamente, a evolução da sociedade (e da economia) brasileira. Em termos de tempo histórico, a nação brasileira nasceu há pouco tempo, menos de dois séculos, se considerarmos que a transferência do império português para sua maior colônia foi a gestação do Estado nacional aqui no Brasil. Napoleão teve o seu papel na nossa história ao afugentar a corte portuguesa para os (tristes e quentes) trópicos…

Mas não podemos encarar essa “infância histórica”, isto é, o século XIX no Brasil, como aqueles que vêem a mente como estruturada e estabelecida na infância. Sem dúvida, deixou “herança maldita” o trauma dessa infância: a escravaria violentada e a ausência de “amparo paternal (estatal)” aos despossuídos, após a extinção da escravidão, a última nas Américas. Não houve aqui reforma agrária, como foi realizada em outros países. Sem-terra na zona rural transformou-se em sem-teto nas cidades.

Se a gente vê a mente em desenvolvimento contínuo, devemos encarar o ciclo da vida como contínua série de etapas, cada qual apresentando possibilidades para novo desenvolvimento, em contraste com o ponto de vista vulgar dos anos adultos como simples desdobramento de eventos, cuja direção já foi determinada. No caso do ciclo da vida social brasileira, também não cabe o determinismo histórico, ou seja, estarmos eternamente condenados à depressão paralisante, devido ao mau início de nossa história.

Este país foi o que mais cresceu no mundo, em sua “adolescência”, no século passado, até 1980. Quando foi obrigado a prestar “serviço militar”, durante 20 anos (1964-1984), entrou em sua primeira “crise do desenvolvimento”. Rebelou-se com a contracultura dos anos 60, a luta armada dos “anos de chumbo”, o movimento grevista do ABC (nascedouro do PT), a campanha pelas Diretas-Já. Não foram meras “rebeliões juvenis”, mas sim parte fundamental da constituição de sua maturidade política, que lhe permitiu, inclusive, o impeachment do poder da “geração yuppie” aliada com velhas oligarquias regionais.

Essa “crise do desenvolvimento” custou duas décadas perdidas no ritmo de crescimento do país. Passou também pela perda das ilusões neoliberais, divulgadas pela elite esnobe, que não perde chance de mostrar desprezo pelas coisas nacionais, inclusive por nossa soberania.

O ex-presidente estava totalmente voltado para si, isto é, para sua projeção pessoal, nas suas relações internacionais, o que levava à total ausência de iniciativa política neste plano. O atual inseriu o Brasil, soberanamente, na política internacional, buscando relações globais, plurais e ativas, em defesa do interesse nacional brasileiro e da constituição de novo espaço político multilateral solidário com os países pobres.

A entrada soberana de nossa economia no mundo globalizado foi como a entrada no mundo adulto. Isso implicou em sair da “casa da família”, ou seja, da guarda do império norte-americano (através do FMI), lutar para tornar-se financeiramente independente e assumir novas posições mais autônomas.

Portanto, empregamos a palavra “crise”, descrevendo certo ponto crítico, com o significado do termo “transição”. Agora, a sociedade brasileira está superando sua “crise do desenvolvimento”. Se não tivesse dado passo expressivo para enriquecer sua vida e crescer mais como sociedade autônoma, provavelmente estaria caminhando às tontas e, mecanicamente, seguindo regras impostas de fora. Esta etapa da vida nacional oferece oportunidade de crescimento como há muito tempo não ocorre. Evidentemente, se a sociedade tenta grandes mudanças, pode falhar. Mas, se não tentasse mudar a subordinação ao pensamento neoliberal, permaneceria estagnada.

Fernando Nogueira da Costa é professor Associado do IE-UNICAMP. Foi Vice-Presidente da Caixa Econômica Federal de 2003 a 2007. Blog: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail:

fercos@uol.com.br.

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